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Rãs, modernismo, por aí

Fiz uma resenha para o Amálgama, que começa assim:

Entre favores de poderosos, viagens instrutivas à Europa e saraus elegantes, pariu-se o modernismo brasileiro. Uma de suas erupções, a Antropofagia de Oswald de Andrade, foi concebida por amigos em torno de um prato de pernas de rã deglutidas com goles de Chablis gelado, num jantar ciceroneado pelo gordo provocador e sua mulher de então, Tarsila do Amaral. Das rãs a Hans Staden, Oswald começou falando delirantemente da evolução das espécies e terminou liderando um movimento de poucos desdobramentos práticos e muitas ideias fascinantes.

A importância dos batráquios na concepção do Movimento Antropofágico é contada em tons ligeiros por Raul Bopp, em um dos livros que, como rojões no Réveillon, pipocaram no começo deste ano, em comemoração aos noventa anos da Semana de Arte Moderna de 22, evento singular em que intelectuais se revoltaram contra os antigos modelos estéticos trazidos da Europa e defenderam, para o Brasil, novos modelos fortemente influenciados… pela Europa vanguardista — como nota Marcos Augusto Gonçalves em outro livro lançado neste ano, 1922: A semana que não terminou.

O livro de Gonçalves é um bom contraponto ao simpático livrinho de Bopp, editado pela José Olympio, Movimentos modernistas no Brasil (1922-1928). A semana… é jornalístico, mas detalhado, documentado e profundo o suficiente para contentar a qualquer acadêmico; Movimentos… é descosido, impreciso, impressionista, mas repleto de detalhes divertidos capazes de prender até quem nem tenha tanto interesse assim no modernismo brasileiro. É um exaustivo inventário de uma parte importante da intelligentsia brasileira, num momento chave de nossa formação cultural.

Bopp, participante do movimento, é um caso nada incomum de escritor que marcou lugar na literatura brasileira com apenas uma de suas obras. O épico Cobra Norato, poema mergulhado no sincretismo das lendas amazônicas e no projeto modernista de levar aos livros a fala brasileira, é sua contribuição à “luta para desafogar o ambiente dos canastrões, que ditavam as regras do bom gosto”. Seu livro sobre a Semana, publicado inicialmente em 1966, começa com o percurso dos movimentos de arte contemporâneos (dele), em um resumo fortemente influenciado pelas ideias do futurismo italiano (“a visão que o homem moderno forma … funde-se em valores dinâmicos”, “a arte moderna veio … seguindo os caminhos da máquina”). Futurismo seria, aliás, a palavra usada — e depois renegada — por Oswald de Andrade e colegas. Razoavelmente honesto, o resumo de Bopp derrapa ao falar do dadaísmo, “composto, em parte, de subartistas apátridas”, na visão míope do escritor. Mas cumpre a função de mostrar que, enquanto fervia a cena artística europeia, concentrada em Paris, o “velho conformismo” amarrava a expressão artística em formas que nada tinham a ver com a crescente metrópole industrial.

O resto, AQUI.

A Invenção da Mona Lisa

É arrancar o verniz antigo de alguma obra de Leonardo da Vinci para descobrir novidades _ antiguidades, no caso _ sensacionais. Foi assim com a Virgem e os Rochedos, que se descobriu não ter intervenções dos roliços discípulos do mestre; foi assim também com a Sant’anna, a Virgem e o Menino, que rendeu acusações de dano à obra (coisa possível, já que o artista fazia o diabo com os vernizes e as tintas misturados na tela). Agora, o fuzuê não se deu com Leonardo, mas com a obra de algum íntimo aprendiz, que teria acompanhado o pintor em tempo real, pintando sua própria Mona Lisa. Tirando o verniz escuro, descobriu-se uma Gioconda menos baleada, com detalhes que o tempo apagou do original. A notícia, para você que acaba de chegar da Antártida e não leu nenhum jornal desta semana, está AQUI.

Como minha implicância com Gisele Bundchen, mito cuja origem consegui traçar até seus quinze anos de idade, paparicada pelo Paulo Francis (talvez o primeiro a chamá-la, exageradamente, de mulher mais linda do mundo), a turma aqui do Sítio se rebela contra a transformação da Gioconda, de Leonardo, em aijisus supremo da arte da Renascença. Como Gisele, a Mona Lisa tem qualidades extraordinárias, e é única, a seu modo; mas, assim como a modelo brasileira não é o ápice e resumo da beleza feminina, a Gioconda é uma _ mas uma, entre outras _ das obras-primas de Leonardo.

Ah o sorriso. Como diriam os renascentistas, é o sfumatto, stronzo! Para um contemporâneo de Leonardo como Giorgio Vasari, não havia mistério, mas profunda beleza naquela “boca, cuja fenda termina em
cantos de um vermelho que se une à carnação de seu rosto, e na verdade não parece ser feita de tinta, mas de carne”.
Leonardo, diz Vasari (que era meio cascateiro, vai saber isso é mesmo verdade), usou um truque “para eliminar aquela melancolia tão frequente na pintura e nos retratos”: “enquanto retratava a Mona Lisa, que era belíssima, por perto sempre havia pessoas a tocar ou a cantar, bem como bufões que a mantinham alegre”. E foi assim que conseguiu “um sorriso tão agradável, que mais parece coisa divina que humana, tão admirável por não ser diferente do natural”.

Em matéria de boca marota e sorriso discreto, Leonardo pintou na mesma época, com sorriso parecido e esfumado, algumas donas, ou melhor, a própria Madona, em quadro anterior à Monalisa, como a Nossa Senhora, Sant’Anna e o Cristo (ou o menino), velha obsessão cá neste Sítio, onde já contei como Sigmund Freud, nosso tarado favorito, via nesse quadro indícios da homossexualidade de Leonardo.

Vasari não endossa muitas das teses sobre o êxito da Mona Lisa, e, como botei num link aí em cima, é falso atribuir a Leonardo _ que a aperfeiçoou _ a invenção do sfumatto, essa técnica de mesclar as cores esmaecendo o contraste entre as áreas de sombra e luz.
Vasari também descreve com detalhes os cílios da figura, (“representados no modo como nascem da carne, ora mais densos, ora mais ralos, obedecendo ao giro dos poros, não poderiam ser mais naturais”), o que confirma a tese dos especialistas de que as sucessivas intervenções “restauradoras” na obra acabaram por levar, com o verniz, as sobrancelhas e os cílios da pobre Mona Lisa. Espero ansioso a divulgação da cópia restaurada pelo Prado, para ver se nela mantiveram as pilosidades da moça.
Famosa, ela já era, e muito, no começo do século passado, quando Duchamp a submeteu a uma avacalhação dadaísta, pintando-lhe uns bigodes e pespegando-lhe um trocadilho no título.

Mas não tenho dúvida de que o começo da transformação da Mona Lisa em ídolo pop foi seu debut nos Estados Unidos, levada com as bençãos de André Malraux pelo charme da Jacqueline Kennedy. Entre 600 mil a 2 milhões de americanos inauguraram a acorrida em massa que depois ficaria a cargo de japoneses (e hoje, dos chineses) para conferir nem tão de perto o que é que a Gioconda tem. Tinha, já, um bruta vidro à prova de balas e um tamanho pequenininho, que invariavelmente frustra os visitantes. Só não frustra mais porque a maioria, afinal, está lá só para dizer que viu a moça de perto; se você perguntar a um deles o que há atrás da Mona Lisa muito provavelmente não saberão responder, apesar de terem comprado a canequinha com a reprodução na loja do museu.

O translado temporário da Gioconda foi um golpe de soft power, num momento ruim para Kennedy e de Gaulle, como lembra AQUI a crítica Lisa Liebmann. Rendeu um livro curioso, Mona Lisa in Camelot, sobre o papel da Carla Bruni, digo, da Jacqueline Keneddy, no esforço para que a Gioconda fizesse sua primeira _e única _ viagem transatlântica.

Para mim (e para mais um especialista de quem vi um video e não consigo lembrar de jeito nenhum), foi aí nessa viagem que sacramentaram a Mona Lisa como o ó-do-borogodó da arte renascentista. Uma injustiça com outros quadros do mestre, o que é uma vantagem para quem gosta de arte: para quem está afim de um sfumatto leonardiano, é possível apreciar, com calma e sem tumulto ou gente interessada, a Virgem das Pedras, no corredor do Louvre que dá acesso à sala onde turistas se acotovelam para (não) ver o retrato famoso da mulher do seu Giocondo.

A viagem da Mona Lisa à América foi fascinante, e pode ser vista em vídeo aqui abaixo. Os locutores se encarregavam, como tinha feito Vasari e fazem os babões de hoje com a Gisele Bundchen, de informar aos leigos que estariam experimentando uma visão próxima à revelação divina. “The ageless symbol of a timeless true (o símbolo eterno de uma verdade perene)”, como diz o sujeito abaixo:

Os detalhes, ah, os detalhes. De valor incalculável, a Gioconda exigiu uma apólice para eventuais reparos, apólice de US$ 5 mil:

“Everybody wants to meet the new girl in town”. Malditos filisteus pervertidos.

Se você quer conhecer as explicações tradicionais para a fama da Mona Lisa, tem esse video aqui, que algum dia uma boa alma legenderá em português:

Mas um blogueiro de línga nacional também andou falando do tema, AQUI. Ops, e AQUI. E AQUI.

Aforismos, o humor dos filósofos


(reconheceu os filósofos acima? não? então vá a página original, no último link abaixo)

O lema de quem pensa mal costuma ser: o que pensarão de mim?
Não concebo a ideia de que o pensamento facilita a vida. Ele a torna arriscada, e a compromete.

É o que penso, mas quem escreveu isso, aí acima, foi o filósofo Fernando Salvater, cujos aforismos involuntários foram coletados pelo argentino Andres Neuman (estrela na última Flip) e deram em belo texto, no supimpa novo portal de cultura do El País. Afinal, a filosofia é apenas mais um gênero literário. Quem diz isso sou eu, mas quem chegou primeiro a essa frase foi o Salvater também, maldito seja.

O texto do Neuman? AQUI.

A verdadeira música das esferas é um palíndromo

Parabéns por não ter deixado que o título aí em cima te levasse a mudar imediatamente de página. E vamos lá: o sujeito atribuiu a cada planeta uma nota musical, estabeleceu uma relação entre o ritmo de translação dos astros e a frequencia de repetição da nota e compôs essa música aí, que, ao repetir o alinhamento dos planetas completará o maior palíndromo já construído no mundo. Coisa que adoro, misturar conhecimentos, com astronomi,a música, matemática, linguagem e falta do que fazer. Isso turbinado ainda vai desbancar o Michel Teló.

Carpeaux, Jorge Amado, José Sarney

Coisas da idade: no Reveillon, dancei como John Travolta (tentei imitar só aquela parte ali pelo 1 min e 40 seg, já fiz muito isso após o segundo uísque). Pois estou até hoje com o joelho estourado, o que nunca aconteceu antes.

A proximidade dos 50 é uma época de acontecer muita coisa nunca antes acontecida, e, por isso, na semana seguinte, comecei o Pilates. Nisso dá não imitar regularmente o John Travolta, diagnosticou Oliveira, o canalha de estimação que temos lá na sucursal do Valor em Brasília.

Outra coisa que veio com a idade também é a perda de memória. Já não sei se contei essa história cá no Sítio, e, que, diabo, conto assim mesmo: eram os anos 80, eu morava em Copacabana no espaçoso conjugado de dona Edith, no qual eu tinha o cuidado de entrar sempre devagar para não erra o passo e cair pela janela, quando uma das senhoras que jogava buraco com minha saudosa avó me convidou para recolher, na casa dela, os livros que me interessassem do falecido marido jornalista. O abençoado ex-escriba não tinha uma biblioteca, tinha um tesouro de prateleira.

Saí da casa da parceira de biriba de dona Edith com duas sacolas de supermercado cheias. De Eça de Queiroz (casa Lello Editores), Almeida Garret, o Urupês de Monteiro Lobato, artigos de Euclides da Cunha, um Brito Broca que ainda editarei e, entre outros, Otto Maria Carpeaux. No Retratos e Leituras, encontrei a chave para atravessar o Ulysses de Joyce, num texto erudito e saboros; em Perguntas e Respostas, encontrei um ensaio genial, Falsificações, que tangencia a discussão contemporânea sobre o plágio na literatura, num comentário sobre como a “originalidade artística” é invenção relativamente recente.

Nem lembro o nome da benfazeja amiga de minha avó, que me deu de presente a paixão por Eça e pelo Carpeaux. mas lembrei dela com carinho ao ver o pobre austríaco em meio à polêmica sobre a generosidade do presidente (do Senado) José Sarney, ao doar à Leya o projeto gráfico pago pelo orçamento público para a reedição da espetacular História da Literatura Ocidental. Bela coleção, aliás, que, na publicação da Editora do Senado, aparece atrás desse bonitão aí da foto ao lado.

A discussão me fez buscar o Retratos e Leituras, e, ao abrir o livro, me caiu ao colo um recorte que já tinha esquecido, guardado lá em 2009, da seção O Globo há 50 anos, contando uma troca de sopapos entre o Carpeaux e… o Jorge Amado (!).

(o texto desse recorte está AQUI)

Coitado, o Carpeaux, além de franzino, acho, era gago. Não se sabe quem mais bateu ou apanhou; não há foto do resultado desse pugilato literário, como há do famoso encontro do canalha do Garcia Marques e Vargas Llosa.


O fato é que, parece, os comunistas da turma de Amado acusavam Carpeaux de nazista; logo ele, que fugiu da Europa de Hitler e corajosamente criticou a ditadura que se impôs ao país nos anos 60. As credenciais progressistas e até meio porraloucas do poliglota são atestadas pelo Leandro Konder, outro comuista de boa cepa, num texto que, no fundo, é razão de todo esse post. História da qual dou o link e reproduzo só o filé:

“…os estudantes enchiam o lugar onde íamos debater. Percebi que, entre eles, as tendências de esquerda mais extremadas eram hegemônicas. Os ventos iam soprar mais para o lado do Carpeaux do que para o meu. Tive, então, por um momento, um pensamento mesquinho: “Tomara que a gagueira atrapalhe o discurso dele.””

O resto, repito, está nesse link AQUI.

Ah, e como brinde um elogio ao Carpeaux, de um sujeito insólito, com links para quatro textos dele: AQUI.

El Ruido de las Cosas al Caer – Juan Gabriel Vásquez


A livraria era pequena, da calçada vi a lombada de um livro do Bioy Casares e entrei, direto para a estante, próxima à porta. Ouvi um “buenas tardes” (é, sei que num post anterior disse ter ouvido um “buenos dias”; a memória é traiçoeira, mas tento ser fiel às lembranças). Na frente dos livros, envergonhado, me virei para cumprimentar a pessoa no caixa; eram duas pessoas, um casal, a quem pedi indicações de literatura colombiana e que acabou me vendendo uns cinco livros, entre eles o “El ruído de las cosas al caer”, de Juan Gabriel Vasquez, recém brindado com o Prêmio Alafaguara de Novela 2011.

E a primeira frase me jogou no colo um paquiderme: “O primeiro dos hipopótamos, um macho de cor de pérolas negras e tonelada e meia de peso, caiu morto em meados de 2009”.

Mais que o prêmio espanhol, o título poético e o insólito primeiro parágrafo fizeram o livro entrar na minha cesta de compras. Vasquez fala do zoológico montado pelo traficante Pablo Escobar; saberemos mais tarde no romance, que foi uma espécie de Disney proibida para certa geração de garotos colombianos. Alguns, escondidos dos pais, acompanharam outras crianças à maravilhosa coleção de animais na mansão do criminoso _ abandonada, depois da queda do cartel de drogas, os animais deixados às moscas.

Filho de advogado que queria vê-lo trabalhar na firma da família, Vasquez estudou literatura latino-americana na Sorbonne, é tradutor de E.M. Foster, John dos Passos e Vitor Hugo, e tido como um dos pilares da narrativa colombiana atual. Escreve de Barcelona, para onde se mudou há um bom tempo. Diz que o escritor escolhe suas influências, e as dele são Philip Roth, Saul Bellow, Joyce e Joseph Conrad. Ele participa ativamente da vida política colombiana, com uma coluna no jornal El Espectador e uma obsessão _ que as entrevistas dele mencionam, sempre _ pelo país. Não é um escritor folclórico, mas é profundamente colombiano, com o cosmopolitismo que tem a elite colombiana.

Os hipopótamos, diz o texto de “El Ruido de las Cosas al Caer”, encerram um episódio na vida do protagonista. Ele narra em primeira pessoa a história do misterioso _ e, ao final, nem tão misterioso assim _ Ricardo Laverde, cujo pai sobreviveu criança a um acidente de uma esquadrilha da fumaça. O protagonista também é um sobrevivente, de um atentado que matou o próprio Laverde, aviador, pai de uma ermitã com quem o narrador se encontrará, resolverá um enigma e chegará a uma encruzilhada na vida.

Ficamos sabendo das aventuras e romance de Laverde e dos sonhos e desgraça de sua mulher, uma americana bem intencionada e romântica, ao mesmo tempo em que caminha uma estranha e íntima relação entre o narrador e a filha do aviador. Vasquez nos fala, na verdade, dos colombianos e sua dolorosa procura de sentido, num país em que o tráfico da droga, iniciado por aventureiros dos Estados Unidos, começa como uma circunstância a mais e até oportunidade de negócio; e termina como doença cancerosa, sangrando a sociedade e, sem metáfora, explodindo certezas.

Vasquez ao comentar seu primeiro livro traduzido no Brasil, AQUI, disse (e repete, com frequância) que “a melhor razão que temos para escrever sobre algo é, precisamente, não entendê-lo, não conhecê-lo”.

Nesse esforço de contar o que não entende, ele domina a descrição com uma malícia de dar inveja, faz coisas banais ganharem luzes espetaculares, ou banaliza o que na mão de alguém menos habilidoso pareceria exótico. Colômbia está no romance com sua estranheza sem realismos mágicos. Me lembrei de como me impressionou, na primeira vez em que fui a Bogotá, a exibição de chagas e sofrimento nas estatuetas de uma loja de figuras religiosas, e seu eco na extraordinária exibição de sado-masoquismo do museu de Arte Sacra, onde telas e esculturas de madeira repetiam rostos macilentos e feridas de sangue coagulado. Elaine, a mulher de Laverde, sente uma curiosa familiaridade na igreja que visita, pouco antes de casar, no centro de Bogotá, onde encontra figuras do Cristo, uma delas em uma “jaula” embaixo de um altar: “…encerrado como um animal em exibição, havia um segundo Cristo, de cabelo mais longo, pele mais amarela e sangue mais escuro. ‘É o melhor de Bogotá’, le havia dito Ricardo, uma vez.”

É um livro triste, com uma ironia branda, pouco agressiva. Elaine, órfã, quer fazer o bem e se considera uma fugitiva de uma América que já não é mais a do sonho, mas a dos massacres de Vietnam, do assassinato de ativistas como Malcom X; Ricardo, filho de um casal da elite decadente, obrigado a alugar quartos para complementar a renda, quer sair da mediocridade miserenta em que vê os pais. Antônio, o narrador, se vê irresistivelmente encantado pela história de Ricardo Laverde, cuja filha, Maya, se afasta do mundo que descobriu ser diferente do que sempre acreditou na infância.

São personagens em busca de identidade, como a Colômbia que não se resigna a ser praça de batalha com o tráfico. Uma procura pós-moderna que Vásquez relata com uma combinação inventiva de recursos tradicionais. Logo ao começar o romance, o narrador justifica seu texto como uma catarse, ou mais bem um acerto de contas, “como quem volta a casa para fechar uma porta que ficou aberta por descuido”. E a história é completada, em seus lapsos, por registros como os que contam despretensiosamente a nossa contemporaneidade: recortes de jornal, a gravação de uma caixa preta de avião, o recado de secretária eletrônica, cartas de uma jovem num país exótico.

O que são as coincidências: poucas semanas após voltar ao Brasil vindo da Colômbia, li no Estadão uma matéria de página inteira a respeito de um documentário… sobre os hipopótamos de Pablo Escobar. Além dos bichos que Vásquez mata logo no começo de seu livro, havia outros no tal zoológico, que sobreviveram e se transformaram em colossal problema para os colombianos. Violentos, saem em busca de fêmeas que não têm como encontrar, destroem plantações, ameaçam gente. Perigosos, imprevisíveis, são meio assim como traficantes desvairados, só que defendidos pelos protetores de animais.

Metáforas pobres como essa aí em cima sobre os hipopótamos não dão conta da Colômbia. Romances como o de Juan Gabriel Vasquez, sem a pretensão de ser alegoria, sim. “Esta história, como se adverte nos contos infantis, já aconteceu antes e voltará a acontecer”, diz ele, quando, a pretexto de contar a vida de Ricardo Laverde, começa a relatar o que, na verdade, é uma busca de lógica, num mundo em que são parte da experiência de uma geração os hipopótamos exilados, a sombra perene de traficantes mortos e a melancolia dos desencontros amorosos.

As redes e os enredados

Umberto Eco, guru querido que completa 80 anos, marcou meus tempos de faculdade com um livro, Apocalípticos e Integrados, em que dividia os teóricos entre os que viam na chamada cultura de massas um desastre diluidor e alienante, nocivo às liberdades e à riqueza da experiência dos indivíduos, e os que saudavam eufóricos as novas tecnologias e novas formas de produção da cultura. Bons tempos, em que era tão fácil dividr os grupos.

Hoje, a voz dominante, à esquerda e à direita, é a que comemora a força das redes sociais na Primavera Árabe _ não importa se as revoltas foram massacradas em países como o Bahrein, a Líbia se viu engolfada em uma disputa de tribos e, enquanto pedem pena de morte para o ex-ditador Hosni Mubarack, os mesmos militares que serviram a ele controlam o poder no Egito e já mataram uns democratas que insistiam em ficar na praça.

Numa palestra recente _ e ilustrativa _ em Oxford, que pode ser ouvida (em inglês) AQUI, a ex-assessora de Hillary Clinton Anne-Marie Slaughter comentava que hoje em dia não se pode falar de relações internacionais como o jogo entre Estados, governos com governos, numa disputa de poder e supremacia; esse terreno agora tem de levar em conta também as relações colaborativas entre governos e sociedades e sociedades e sociedades, em iniciativas como a Wikipedia, redes internacionais de cientistas ou interações entre Estado e ONGs, por exemplo. Ela dizia como o “desenvolvimento” tem de ser parte das ações governamentais, de como os EUA fortaleceram o Usaid, sonhando em fazê-lo musculoso como o DFID inglês, para envolver as populações em objetivos como melhoria da saúde, combate ao aquecimento global, fim do terrorismo.
Slaughter é um nomezinho infeliz para uma pessoa pacífica, “massacre”, em inglês. O interessante da coisa toda é a confiança dela na faceta positiva das mudanças proporcionadas pelas redes propiciadas pela globalização e pela Internet, nosso meio de comunicação de massas mal pressentido pelos teóricos listados pelo Eco.

Há quem veja nesses meios o apocalipse para o intelectual elitista e a gênese de um novo mundo criativo. Há quem veja com ceticismo que vê na Internet uma revolução radical.

Eu, que ia apenas fazer mais um post enquanto não entrego o texto que prometi, sobre o Juan Gabriel Vasquez, acabei me estendendo demais, quando queria também, e apenas, comentar a preciosa entrevista do George Steiner _ mais para apocalíptico que para integrado _ que tocou num aspecto não abordado pelos profetas do mundo novo das redes, das colaborações em nuvem e das primaveras de pobre: ao mesmo tempo em que nunca tivemos tanta informação à nossa disposição, nunca o saber foi tão complexo, tão sofisticado (Daniel Piza lembrava que a palavra vem da mesma raiz de sofista), tão inacessível.

Os intelectuais, especialmente os literatos, não conseguem dar conta do conhecimento que é base do desenvolvimento das sociedades atuais. “O conhecimento não se comunica”, disse ele. E disse mais, ao comentar que os escritores abandonaram as grandes pretensões filosóficas, as ambiciosas narrativas abrangentes:

“A literatura escolheu o domínio das relações pesssoais em pequena escala e não trata mais dos grandes temas metafísicos. Não temos mais escritores como Balzac ou Zola, gênios da comédia humana que podiam explorar qualquer campo. Proust também criou um mundo inesgotável, e o Ulisses de Joyce é ainda muito próximo de Homero…Joyce é a ponte entre os dois grandes mundos do classissimo e do caos. No passado, filosofia também podia proclamar-se universal. O mundo inteiro estava aberto ao pensamento de um filósofo como Espinoza. Hoje, uma imensa parte do Universo é fechada para nós.
Nosso mundo está encolhendo. A Ciência está se tornando inacessível para nós. Quem pode entender a última inovação em genética, astrofísica, biologia? Quem pode explicar elas ao leigo? O Conhecimento não se comunica mais; escritores e filósofos dos nossos tempos são incapazes de nos habilitar para entender ciência. Ao mesmo tempo, o escopo da imaginação na ciência é deslumbrante. Como podemos ter a pretensão de falar da consciência humana se não olhamos para o que é mais ousado e criativo? Estou preocupado com o que significa ser literato hoje em dia. É possível ser literato se voc~e não entende uma equação não-linear?”

E eu que já lamentava ter abandonado a matemática, que adorava na escola, só pelo trabalho que me dá hoje quando escrevo sobre economia…

O resto da entrevista está AQUI. E, garanto, vale a pena.
: o Luis notou bem, há uma versão em portugues (claro) para a entreviosta do Steiner. Aqui.

A caixa de correio nos espera na volta do Reveillon

Em breve, comento aqui “El ruido de las cosas ao caer”, do Juan Gabriel Vasquez. Para não deixar o Sítio assim, sem nada, um textinho requentado como a ceia do Ano Novo. Foi publicado há um ano (reciclando texto já publicado, confesso; jurei não mentir nesse 2012):

Naquele dia, acordou cedo, ligou o computador, conectou-se à Internet, consultou as trezentas mensagens que lotavam sua caixa postal e, inspirado nelas, decidiu mudar de vida. Para começar, aceitou a proposta do nigeriano que queria compartilhar com ele uma pequena fortuna ganha em negócios nebulosos.
Ainda que o novo sócio lhe garantisse um futuro sem preocupações, aceitou também as dicas de ações “quentes” na Bolsa de Nova York, que estavam ao alcance de um clique em quinze das mensagens que havia recebido. Guardou, para o futuro, os incontáveis currículos que lhe mandavam (vai que decide abrir uma empresa). E respondeu à oferta de manual para otimizar as vendas, ainda que não pretendesse comercializar coisa nenhuma.
Desprezou os cinco e-mails de remetentes que se diziam “amigos” e lhe ofereciam “fotos da traição” _ estava separado há algum tempo, o passado não lhe interessava mais. Mas, advertido por uma ex-namorada de que o tamanho importa, sim, porque pode dificultar pelo menos dois terços das posições do Kama Sutra que acabara de encomendar (inclusive algumas mais cotidianas), enviou os dados do CPF e do cartão de crédito para comprar o kit que lhe permitiria agregar uma nova dimensão à sua anatomia.

Excitado com as perspectivas, resolveu também corresponder às cantadas virtuais das vinte americanas que se diziam casadas mas calientes, e dispostas a lhe propiciar momentos de prazer inesquecível.
Por via das dúvidas, aceitou comprar o Viagra propagandeado por duas das quarenta mensagens sobre o assunto, e topou testar os métodos infalíveis que lhe ofereciam para emagrecer dormindo, perder peso comendo e ganhar forma física sem fazer força (se não servissem para ele, alguma das americanas casadas decerto se interessaria).
Viu chegar e-mail urgente da secretária, com recado da administradora do cartão de crédito, falando em estranhos movimentos na sua conta. Clicou então nos três e-mails de bancos que anunciavam atualizações no pacote de segurança e forneceu os dados requeridos, inclusive sua senha do cartão e do internet banking, além de dados pessoais, como o nome da própria mãe (ainda que nem tivesse contas em um dos bancos, e que o destinatário de uma das mensagens fosse um nome diferente do seu; ah, essa impessoalidade dos gerentes bancários).
Mandou três e-mails aceitando a proposta imperdível para comprar relógios Rolex . Deixou para mais tarde os e-mails que lhe ofereciam vídeos da Pamela Anderson e da Paris Hilton, e, curioso, baixou as fotos das cinco moças de quem não se lembrava, mas que diziam ter estudado com ele no passado e estar morrendo de saudade.
Mais não fez.
Inexplicavelmente, o computador travou.

Não se faz literatura no vizinho?

Eu estava no Paraguai, creio que no século passado, e, na frente do terrível hotel onde me hospedei (há bons hoteis no Paraguai, mas esse não está no clube), havia um café internet.
(Era uma época de cafés Internet).
Na parede, desenhos em estilo bico de pena, com autores paraguaios. Ou latino-americanos, não sei; não identifiquei nem o Augusto Roa Bastos que, tenho certeza, estava lá, revestindo a parede.
Deu vergonha. Me dei conta de que, à parte os óbvios, eu desconhecia os autores dos países vizinhos, os escritores de língua espanhola. Para confessar a verdade, desconhecia e desconheço ainda os novos autores de língua portuguesa editados fora do Brasil. Mas, como tudo que me envergonha, a experiência me motivou a evitar novos vexames. Ou tentar, pelo menos.
Passei a aproveitar as viagens pelo continente para tomar contato com os autores; a começar pelos nem tão novos, mas desconhecidos no Brasil. Gente de quem se fala menos do que se deveria, por aqui, como Juan José Saer, de quem comprei Cicatrices, numa banca em Buenos Aires. Ou – esse até é mais falado (e traduzido) _ Juan Carlos Onetti.
O que notei, a partir dessa experiência, foi a ausência dos escritores latino-americanos nos blogues e colunas literárias por aqui, a não ser quando esses escritores passavem por dois filtros: 1) ganham fama nos países anglo-saxônicos ou, em menor escala, na França _ caso do nosso amigo admirado Roberto Bolaño, exemplo lapidar; ou 2) aparecem na Flip, viva ela.
Os comentaristas ou críticos brasileiros que escrevem para blogue ou jornal aparentemente não conseguem acompanhar o que se publica na vizinhança. Ou têm alergia a cucaracha.

Daí passei a ter vontade de, com a modéstia que minha mediocridade autoriza, brincar nesse playground despejado. Juntando o gosto com a tara, decidi que uma de minhas resoluções de Ano Novo seria essa, escrever regularmente sobre os bons autores que, inexplicavelmente, não são falados por aqui, por complexo ou ignorância, quem sabe.
Há uns meses, na Colômbia, entrei em uma livrariazinha minúscula, e, enquanto olhava a estante, ouvi um “buenos dias” que me fez olhar para trás, envergonhado por não ter cumprimentado o caixa. Eram dois, no caisa, um casalzinho simpático, de quem comprei, por sugestão deles, meia dúzia de livros de autores colombianos contemporâneos. É com um deles que começo essa nova fase do Sítio.
Chama-se, Juan Gabriel Vásquez, escreve maravilhosamente bem e merece atenção. Em breve, falo dele aqui.

O mercado no caminho do poeta

Esse texto foi meu pitaco no livro-seminário Poesia Contemporanea:Olhares e Lugares, organizado pela querida Sylvia Cintrão, com gente como o José Castello e Nicholas Behr e lançado na semana passada em Brasília:

Sinônimo de poeta nos livros escolares brasileiros, Carlos Drummond de Andrade publicou apenas 500 exemplares na primeira tiragem de seu inovador “Alguma Poesia”, em 1930, pela fictícia “Edições Pindorama” _ nome inventado por amigo, que encobria uma boquinha da Imprensa Oficial de Minas Gerais, de onde saiu a obra. Hoje, quem sabe, empreendimento semelhante em gráfica estatal geraria matéria de escândalo em jornais. Mas os críticos da época, desatentos a usos particulares da máquina pública, encrencavam mesmo com a insistência do poeta em recitar que havia uma pedra no meio do caminho.

Drummond devia ter ainda em casa alguns exemplares de seu primeiro livro quando publicou o segundo, “Brejo das Almas”, em edição mais modesta, de 200 exemplares, quatro anos mais tarde. Em 1940, seguindo a tendência decrescente das impressões do poeta, seu “Sentimento do Mundo” saiu em 150 exemplares, distribuídos por ele a amigos. E o escritor já era conhecido, colaborador em revistas, amigo dos vanguardistas do Modernismo, autor de poema musicado por Villa Lobos; sua pedra escandalosa lançada pela primeira vez na Revista de Antropofagia ainda rendia ecos, de ira ou de entusiasmo.

Só dois anos depois, a corajosa José Olympio Editora iria se interessar pela obra do poeta, então chefe de gabinete do ministro de Educação, Gustavo Capanema, com contribuições espalhadas pelos jornais, e o nome pronunciado com freqüência pelos literatos e apreciadores de poesia. A editora publicaria “Poesias – José”. E nem assim Drummond passou a viver de poemas, mas dos salários no serviço público e na imprensa.

Hoje, Drummond é bestseller da poesia nacional e está entre os autores que fazem dos adolescentes nas escolas o principal público para os poetas brasileiros, como informa a pesquisa do Instituto Proler trazida ao II Simpósio de Critica de Poesia por Antonio Miranda. Enquanto Drummond, oferecido nos currículos do ensino médio, vende catadupas de exemplares como não chegou a fazer em vida, os poetas contemporâneos têm a Internet para terraplenar o caminho entre eles e o público. Mas se queixam de que as editoras não querem saber de poesia…

O desinteresse das editoras é real, pelo menos em relação à maioria dos autores novos ou menos conhecidos. O recurso às gráficas oficiais, hoje, seria, além de pecado reconhecido, um passaporte para processo pelo Ministério Público. O caminho dos concursos com promessa de publicação, como nota Miranda, é uma pedreira marota, encravada de gráficas gananciosas dispostas a arrancar dinheiro de autores ingênuos em troca de algumas dezenas de livros mal acabados.

Ora, a existência do vasto mundo da Internet não seria uma solução? Afinal, as páginas virtuais são, paradoxalmente, uma alternativa muito concreta. Os poemas publicados na rede estão aí, para todo mundo ver.

Mas… quem quer ver?

Na aventura da rede mundial de computadores, o poeta mostra querer mais que soltar seus poemas na vida. Ele quer ser lido, respeitado, popularizado e estudado, talvez. Nem todo poeta é dos que anseiam pelo arfar desejoso no peito da amada, mas todos querem conquistar corações e mentes. Todos os que sonham com a publicação, penso eu.

Publicar, hoje, exige apenas acesso a um provedor e um mínimo de proficiência com computadores, o que mesmo o mais nefelibata dos neoparnasianos deve ter hoje em dia. Em 0,11 segundos, o Google encontra 29 milhões de resultados para a palavra “poesia”. “Poeta”, em 0,12 segundos, resulta em aproximadamente 37,8 milhões de páginas. Com apenas 0,08 segundos, estão acessíveis 20,8 milhões de opções de “poema”. Nem tudo é verso, claro. Mas há muitos, e, para o poeta, é preciso entregá-los, cedo ou tarde. Apenas largar estrofes na página eletrônica é arriscar-se a afundar na multidão conectada

E agora, seu Zé? Para os poetas, aparentemente, o livro de papel não pertence ainda a um mundo caduco. Impresso e sancionado por uma grande editora, ele é visto como o selo de qualidade que vai retirá-lo (ou retirá-la, não se deve esquecer das poetas) da vida besta de criador anônimo, perdido na multidão versejadora em blogues e páginas avulsas. Não há ainda, na Internet, reconhecido, um mediador entre as milícias de poetas e o público possível. Esse papel, como indicou no Seminário o poeta, editor e tradutor Rodrigo Garcia Lopes, pode ser assumido pelas revistas eletrônicas. Com tiragens ilimitadas, porque virtuais, essas revistas _ e seus similares, portais e coletivos de blogues _ tendem a ocupar o território antes exclusivo das revistas de poesia impressas. Podem tornar-se local de debate e (re)conhecimento de poetas. Têm condições de servir de referência para os meios de comunicação.

Caberia a essas iniciativas, também, adotar uma visão editorial mais ativa na busca do público. A formação dos apreciadores de poesia é um dever da escola, e um desafio aos poetas. As redes sociais, do Facebook ao Twitter, removem algumas das antigas pedras no caminho entre criador e seus leitores, mas não foram ainda exploradas pelos escritores como começam a ser pela publicidade e o consumo de massa.

Drummond distribuía seus livros auto-editados de mão em mão, aos amigos. Um modem, hoje, estende mais mãos ao autor do que qualquer um seria capaz de alcançar no passado.

Na década de 70, poetas descobriram um mecanismo de reprodutibilidade técnica daquela era que permitiu a eles contornar editoras e censura e distribuir nas praias, bares e casas seus versos em folhas mimeografadas. A condição literária marginal não os impediu de formarem uma geração, e uma acadêmica atenta, Heloísa Buarque de Holanda, os puxou para o mundo da crítica séria. Não faltam críticos, acadêmicos, leitores potenciais, amantes da poesia e possíveis editores navegando pelo chamado ciberespaço. Aos pessimistas, o melhor conselho seria: fazer como os otimistas, e escrever, nessa Internet movediça, com o consolo de estar em melhor situação que um dos pioneiros da poesia no Brasil, o padre que, prisioneiro de índios, começou riscando na areia da praia um poema de quase seis mil versos em latim.

Para os fetichistas que, como sugere Antônio Miranda, sonham encontrar num copo meio cheio de esperanças a chance de ter os versos gravados em tinta sobre papel, o cenário também é mais promissor que o encontrado pelos poetas passados. O mostruário da Internet não é, afinal, uma simples vitrine de bolsas, como a que já deteve, lírico e sem esperanças, numa Copacabana já extinta, o neoconcreto Ferreira Gullar.

E, acredito, nem todos os editores de hoje são como o homem do futuro previsto por Drummond, feito em laboratório, sem amor, ternura ou desejo.