Esse texto foi meu pitaco no livro-seminário Poesia Contemporanea:Olhares e Lugares, organizado pela querida Sylvia Cintrão, com gente como o José Castello e Nicholas Behr e lançado na semana passada em Brasília:
Sinônimo de poeta nos livros escolares brasileiros, Carlos Drummond de Andrade publicou apenas 500
exemplares na primeira tiragem de seu inovador “Alguma Poesia”, em 1930, pela fictícia “Edições Pindorama” _ nome inventado por amigo, que encobria uma boquinha da Imprensa Oficial de Minas Gerais, de onde saiu a obra. Hoje, quem sabe, empreendimento semelhante em gráfica estatal geraria matéria de escândalo em jornais. Mas os críticos da época, desatentos a usos particulares da máquina pública, encrencavam mesmo com a insistência do poeta em recitar que havia uma pedra no meio do caminho.
Drummond devia ter ainda em casa alguns exemplares de seu primeiro livro quando publicou o segundo, “Brejo das Almas”, em edição mais modesta, de 200 exemplares, quatro anos mais tarde. Em 1940, seguindo a tendência decrescente das impressões do poeta, seu “Sentimento do Mundo” saiu em 150 exemplares, distribuídos por ele a amigos. E o escritor já era conhecido, colaborador em revistas, amigo dos vanguardistas do Modernismo, autor de poema musicado por Villa Lobos; sua pedra escandalosa lançada pela primeira vez na Revista de Antropofagia ainda rendia ecos, de ira ou de entusiasmo.
Só dois anos depois, a corajosa José Olympio Editora iria se interessar pela obra do poeta, então chefe de gabinete do ministro de Educação, Gustavo Capanema, com contribuições espalhadas pelos jornais, e o nome pronunciado com freqüência pelos literatos e apreciadores de poesia. A editora publicaria “Poesias – José”. E nem assim Drummond passou a viver de poemas, mas dos salários no serviço público e na imprensa.
Hoje, Drummond é bestseller da poesia nacional e está entre os autores que fazem dos adolescentes nas escolas o principal público para os poetas brasileiros, como informa a pesquisa do Instituto Proler trazida ao II Simpósio de Critica de Poesia por Antonio Miranda. Enquanto Drummond, oferecido nos currículos do ensino médio, vende catadupas de exemplares como não chegou a fazer em vida, os poetas contemporâneos têm a Internet para terraplenar o caminho entre eles e o público. Mas se queixam de que as editoras não querem saber de poesia…
O desinteresse das editoras é real, pelo menos em relação à maioria dos autores novos ou menos conhecidos. O recurso às gráficas oficiais, hoje, seria, além de pecado reconhecido, um passaporte para processo pelo Ministério Público. O caminho dos concursos com promessa de publicação, como nota Miranda, é uma pedreira marota, encravada de gráficas gananciosas dispostas a arrancar dinheiro de autores ingênuos em troca de algumas dezenas de livros mal acabados.
Ora, a existência do vasto mundo da Internet não seria uma solução? Afinal, as páginas virtuais são, paradoxalmente, uma alternativa muito concreta. Os poemas publicados na rede estão aí, para todo mundo ver.
Mas… quem quer ver?
Na aventura da rede mundial de computadores, o poeta mostra querer mais que soltar seus poemas na vida. Ele quer ser lido, respeitado, popularizado e estudado, talvez. Nem todo poeta é dos que anseiam pelo arfar desejoso no peito da amada, mas todos querem conquistar corações e mentes. Todos os que sonham com a publicação, penso eu.
Publicar, hoje, exige apenas acesso a um provedor e um mínimo de proficiência com computadores, o que mesmo o mais nefelibata dos neoparnasianos deve ter hoje em dia. Em 0,11 segundos, o Google encontra 29 milhões de resultados para a palavra “poesia”. “Poeta”, em 0,12 segundos, resulta em aproximadamente 37,8 milhões de páginas. Com apenas 0,08 segundos, estão acessíveis 20,8 milhões de opções de “poema”. Nem tudo é verso, claro. Mas há muitos, e, para o poeta, é preciso entregá-los, cedo ou tarde. Apenas largar estrofes na página eletrônica é arriscar-se a afundar na multidão conectada
E agora, seu Zé? Para os poetas, aparentemente, o livro de papel não pertence ainda a um mundo caduco. Impresso e sancionado por uma grande editora, ele é visto como o selo de qualidade que vai retirá-lo (ou retirá-la, não se deve esquecer das poetas) da vida besta de criador anônimo, perdido na multidão versejadora em blogues e páginas avulsas. Não há ainda, na Internet, reconhecido, um mediador entre as milícias de poetas e o público possível. Esse papel, como indicou no Seminário o poeta, editor e tradutor Rodrigo Garcia Lopes, pode ser assumido pelas revistas eletrônicas. Com tiragens ilimitadas, porque virtuais, essas revistas _ e seus similares, portais e coletivos de blogues _ tendem a ocupar o território antes exclusivo das revistas de poesia impressas. Podem tornar-se local de debate e (re)conhecimento de poetas. Têm condições de servir de referência para os meios de comunicação.
Caberia a essas iniciativas, também, adotar uma visão editorial mais ativa na busca do público. A formação dos apreciadores de poesia é um dever da escola, e um desafio aos poetas. As redes sociais, do Facebook ao Twitter, removem algumas das antigas pedras no caminho entre criador e seus leitores, mas não foram ainda exploradas pelos escritores como começam a ser pela publicidade e o consumo de massa.
Drummond distribuía seus livros auto-editados de mão em mão, aos amigos. Um modem, hoje, estende mais mãos ao autor do que qualquer um seria capaz de alcançar no passado.
Na década de 70, poetas descobriram um mecanismo de reprodutibilidade técnica daquela era que permitiu a eles contornar editoras e censura e distribuir nas praias, bares e casas seus versos em folhas mimeografadas. A condição literária marginal não os impediu de formarem uma geração, e uma acadêmica atenta, Heloísa Buarque de Holanda, os puxou para o mundo da crítica séria. Não faltam críticos, acadêmicos, leitores potenciais, amantes da poesia e possíveis editores navegando pelo chamado ciberespaço. Aos pessimistas, o melhor conselho seria: fazer como os otimistas, e escrever, nessa Internet movediça, com o consolo de estar em melhor situação que um dos pioneiros da poesia no Brasil, o padre que, prisioneiro de índios, começou riscando na areia da praia um poema de quase seis mil versos em latim.
Para os fetichistas que, como sugere Antônio Miranda, sonham encontrar num copo meio cheio de esperanças a chance de ter os versos gravados em tinta sobre papel, o cenário também é mais promissor que o encontrado pelos poetas passados. O mostruário da Internet não é, afinal, uma simples vitrine de bolsas, como a que já deteve, lírico e sem esperanças, numa Copacabana já extinta, o neoconcreto Ferreira Gullar.
E, acredito, nem todos os editores de hoje são como o homem do futuro previsto por Drummond, feito em laboratório, sem amor, ternura ou desejo.