Interferência em Santa Teresa, Rio, de meu amigo Marcelo Terça-Nada e seu grupo, Poro. Mais, AQUI.
Quase atemporal
“Um crescente número de leitores tornou-se redator _ a princípio ocasional.”…”Hoje é raro o europeu com emprego remunerado que não possa, a princípio, encontrar oportunidade de publicar, em um lugar ou outro, seus comentários sobre o próprio trabalho, suas queixas, relatos documentais ou coisa parecida. A distinção entre autor e público está prestes a perder sua característica básica, portanto. A qualquer momento, o leitor pode se tornar escritor.”
Esse, em tradução minha da versão em inglês, é o Walter Benjamin, no celebrado “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica”, que teve a primeira versão concluída em 1936. Trinta e seis.
O que mais chama a atenção é o único trecho que soa realmente anacrônico no texto: o que fala em “europeu com emprego remunerado”.
Soft power é isso aí camarada
Estávamos no século passado, eu andava por Washington, pela Isto É Dinheiro, e duas coisas me chamaram a atenção: a voz do Jorge Ben, saindo às alturas de uma caixa de som em um boteco próximo ao hotel, e a excepcional performance de um músico num bar de Jazz cahamado Café Lautrec, tocando… bossa nova. Já no fim da viagem, eu e o Régis, fotógrafo, conversávamos num sebo na entrada de Georgetown e a vendedora, espanhola, perguntou se éramos brasileiros. Havia reconhecido o sotaque porque amava a música do Brasil.
É um ativo poderoso esse patrimônio musical brasieiro, até agora só usado com avassaladoras consequências geopolíticas, que eu saiba, para sustentar um cacho de bananas sobre a cabeça de Carmen Miranda durante a Guerra Fria, e para inundar elevadores com bossa nova executada no estilo muzak, abalando, inadvertidamente, os fundamentos do bom gosto na civilização judaico-cristã.
Claro, no terreno propriamente musical fizemos o diabo e o bom Deus, influenciando de Stan Getz a Almodóvar. Parabéns aos Tons, Zé e Jobim, ao Caetano, ao Hermeto, ao Naná Vasconcelos, a toda essa gente bronzeada que mostrou nosso valor ao mundo. Mas a quem me apontar uma iniciativa sustentada da diplomacia brasileira para promover nossa música como forma de ampliar a influência internacuiobnal do Brasil dou um LP banhado em ouro com a gravaçao dos discursos do Barão do Rio Branco. Não vale citar eventos como contratação de grupo de choro para servir de pano de fundo em coquetel na China.
Acima do Rio Grande, a coisa é levada mais a sério. Os conservadores nos EUA foram capazes de promover arte que não colocariam sobre suas lareiras, ao constatar que era apropriada à venda do ideal de liberdade e individualismo tão contrário aos ideais coletivistas e ao stalinismo ditatorial do outro lado da trincheira, na guerra anti-comunista. Assim, a CIA ajudou a proover o expressionismo abstrato como modelo de arte dos tempos modernos. E patrocinou até revista de gente meio chegada ao esquerdismo, como a paradigmática Paris Review (embora sobre isso haja controvérsias).
É bom ver que a atual ministra da Cultura se preocupa com essas questões, e fala delas com alguma familiaridade nessse artigo citado AQUI, ainda que, depois de ler o texto todo, a gente fique sem saber exatamente o que ela estaria planejando. Se é que está.
Mas ainda estamos a alguns milhões de quilônmetros dos Estados Unidos, geopolíticamente falando. Nessa habilidade de conquistar corações em mentes com a qualdiade de suas produções culturais mora uma parte considerável do poder americano. Para o bem e para o mal. Como me disse uma vez o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, na época presidindo um país acusado de maltratar seus indígenas, os EUA resolveram boa parte de seus problemas com a população aborígene norte-americana massacrando os índios. E ainda fizeram o mundo torcer pelos genocidas, com os filmes de cowboy, lembrei eu.
Daí que a capacidade do soft-power de Hollywood para justificar as políticas de Estado nos EUA não é novidade (o contrário também pode ser verdadeiro, vá lá), o que me faz concordar com o Sérgio Augusto no Estadão de hoje, em análise inspirada dos vencedores do Oscar, AQUI.
Um trechinho do artigo, em que troquei a ordem dos parágrafos sem alterar o produto:
Há 17 anos que Hollywood mantém estreito contato com a CIA, que aos produtores presta consultoria técnica e exerce um controle nada negligenciável sobre o conteúdo e a composição dos personagens de determinados filmes para o cinema e a televisão. Exemplos mais ou menos recentes: JAG – Asas Invencíveis, Inimigo do Estado, A Soma de Todos os Medos. Ex-agentes alugaram seu know how a Syriana, Quebra de Sigilo, O Suspeito, Red – Aposentados e Perigosos.
As duas imagens da CIA se espelham, complementam e confrontam em Argo: a CIA golpista que derrubou o último líder secular do Irã (Mossadegh) para devolver o poder à despótica monarquia do xá Reza Pahlevi, abrindo caminho para a insana teocracia dos aiatolás, que até hoje perdura, e uma CIA socorrista, mais próxima da Swat e daquela trupe de falsos atores poloneses tentando escapar dos nazistas na comédia de Lubitsch Ser ou não Ser, depois refilmada por Mel Brooks. A última imagem é a que fica.
Remediando as feridas inevitáveis do capitalismo
A Foreign Affairs é uma das revistas indispensáveis para entender o que se passa, concordando ou não com seus artigos (outra revista indispensável é a Caras, mas só se você quer saber o que estão fazendo celebridades de quem já terá esquecido no ano que vem). Nesses dias em que, além de D. Pedro e suas duas mulheres, andam ressuscitando Marx, saiu um artigo exemplar do tipo de debate que a crise internacional vem despertando nos chamados países desenvolvidos, sobre o futuro desse mundo capitalista velho de guerra (e bota guerra nisso).
“Desigualdade é um produto inevitável da atividade capitalista, e expandir a igualdade de oportunidades só a aumenta _ porque alguns indivíduos e comunidades são simplesmente mais hábeis que outros para explorar as oportunidades para desenvolvimento que o captalismo permite”.
É o que diz o historiador Jerry Muller, num texto em que argumenta ser desaconselhavel expandir muito os programas sociais já existentes no mundo rico, mas também diz não ser inteligente deixar os pobres na chuva. Pena ser em inglês, e não tempo nem paciência para traduzir, AQUI.
Tunga, esse simpático
Você gosta de algumas obras dele, doutras nem tanto; se leu o livro do Felipe Scovino, sabe que ele pode ser mau com um entrevistador; e não faz o menor esforço para fazer da própria obra algo palatável. Aliás, na participação dele na série de filmes pornô/conceitual Destricted é francamente escatológica (essa série tem uma curiosidade filosófica, a participação, como ator, do Vladimir Safatle, no filme artístico/pornô da Dora Longo Bahia, “Petit A”. Totalmente vestido, sentado e sem tocar em ninguém, naturalmente).
Pois você resolve incluir o Tunga na série de entrevistas que andou fazendo com artistas contemporâneos. E descobre um sujeito simpaticíssimo, erudito sem empáfia, divertido e genial.
Da série Recordar é Viver, o almoço com Tunga, no Valor:
Ao inaugurar a editora Cosac Naify, hoje referência nacional em livros de arte, o editor Charles Cosac escolheu como tema do primeiro livro um artista que admirava e conhecia bem: Tunga.
Inhotim, pioneiro espaço de arte contemporânea em Minas com fama mundial e cerca de 500 obras de cem artistas de todo o mundo foi inspirado, segundo seu criador, Bernardo Paz, em conversas decisivas com um amigo criador: Tunga.
O primeiro artista contemporâneo a expor no espaço central sob a pirâmide do Museu do Louvre, em Paris, tem trânsito internacional, mas nasceu no Brasil: Tunga.
É Tunga quem abre a porta do sobrado em São Conrado, onde mora, recebe amigos e se mete em elucubrações intelectuais geradoras de obras aguardadas por ávidos colecionadores e galerias que o representam em São Paulo, Nova York, Paris e Londres. Na entrada, ao perceber a atenção despertada pelos objetos distribuídos no caminho que leva à escada – antigos ídolos africanos cravados de pregos, obras de estilo construtivo, esculturas de sua autoria, com formas orgânicas – inicia a conversa, com jeito de palestra intimista.
“Os objetos são como palavras; juntos assim, permitem que se conectem os sentidos…”
Tunga, às vezes, assusta. Como quando foi chamado para inaugurar a sede do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, e, para pânico dos restauradores, comandou, no edifício neoclássico, ainda cheirando a tinta, uma performance dionisíaca com mais de uma centena de atores, argila e gente nua lambuzada de batom e sopa. Ou quando foi entrevistado pelo crítico Felipe Scovino, para um livro sobre artistas contemporâneos, e desmontou as teses que o entrevistador lhe apresentava, a cada pergunta, com respostas como: “Fico perplexo… nunca vi essa história da arte que você está me relatando”.
Há três anos, o crítico Agnaldo Farias dedicou a ele a abertura do livro “Arte Brasileira Hoje”, apresentação da arte contemporânea aos leigos que ficam intrigados e irritados pela dificuldade em entender o que andam fazendo os artistas. Tunga, disse o crítico, “é exemplar”.
O resto, AQUI.
(Um dia publico a entrevista toda, que não coube no jornal e teve até uma digressão sobre a tal escatologia do Destricted. Um dia.)
PQP
“Papai, não vou precisar de vestibular não; já decidi o que vou fazer: vou ser puta”. Ora, ora; por que não?
Bruna surfistinha, a moça de classe média que pulou fora do anonimato com o trampolim da Internet e ganhou dinheiro e fama avaliando on line as trampolinagens com os fregueses, não arrastou seguidoras; mas sua tradicional profissão é cada vez mais defendida pela indústria cultural. Há uma normalização da venda do corpo, quase uma celebração. Nada mais natural, em um mundo de consumidores, onde tudo está aí para ser transformado em mercadoria, até a intimidade.
Trivial, aliás, é palavra com um pé na zona. Vem de trivialis, encruzilhada de três vias, onde as moças se ofereciam aos passantes em troca de pecúnia. Hoje, trivializam a prostituição por via eletrônica, e quem fica numa encruzilhada é a turma progressista que defende a liberdade das mulheres em relação ao próprio corpo, mas vê com horror a mercantilização das relações humanas.
A irresistível periguete oportunista da novela das dez, a garota de programa com o charme e malemolência da Camila Pitanga; as rebolativas paniquetes com as formas roliças infladas à disposição dos produtores; a história da mocinha que quase defende como ato heroico a participação no documentário soft-porn, no qual venderá a virgindade em leilão. E, agora, um novo seriado da TV a cabo no qual mulheres chiques, sofisticadas e bem resolvidas mostram a glamurosa vida das piranhas de luxo. Num mundo em que até a infância virou apenas pretexto para comércio, a comercialização do corpo é mais que uma trivialidade, é um sabor que você também deveria experimentar. 
A venda ou oferecimento do corpo feminino nem sempre foi tabu. Algumas tribos de índios, para surpresa e gozo dos portugueses que aqui aportaram há cinco séculos, ofereciam as mulheres aos visitantes, como mostra de hospitalidade (ao que os navegantes retribuíram copiosamente, com sífilis e outros brindes transmissíveis, mas isso é outra história). O explorador Gabriel Soares de Souza conta que os tupinambás do século XVII escolhiam uma de suas moças para ser a mulher de cada prisioneiro de guerra, até que o matavam e o serviam em banquete. Se ela engravidava e tinha um filho com ele, o neném também ia para a panela, e ela tinha o privilégio de escolher o primeiro pedaço, (mas isso também é outra história).
Berços da civilização, a Babilônia e a Grécia antiga também tinham suas prostitutas funcionais, para efeitos religiosos, ainda que essa história hoje levante uma puta polêmica.
O que chama atenção na atual putaria é seu alcance para além do terreno cultural ou religioso. É a economia, tarado. Ali, a moça faz sexo em troca de cachê ou salário, em um filme, um programa; mais adiante, a garota vende o hímen a quem pagar mais por rompê-lo, garantindo que usará a grana para atividades caritativas; aqui, cerca-se de uma aura libertária a atuação na mais velha profissão do mundo (dizem que a segunda mais velha é a dos advogados, na geração seguinte, mas acho que é provocação).
E se alimenta, no imaginário popular, a ideia de que comercializar o próprio corpo é uma maneira como as outras de vender a força de trabalho, apenas despida (claro) de velhos preconceitos.
Gostaria muito de ver falarem o contrário: de que vender a força de trabalho, uma circunstância do sistema capitalista, não é oferecer a ética no balcão, botar preço na consciência, pensar que em se pagando tudo vai. Que há sacanagens e sacanagens, e que mercado não precisa ser bordel.
imagem: Sergio Leo. “Boudouir#3″(inspirado em foto de Heinrich Kühn)-Óleo sobre eucatex
Rãs, modernismo, por aí
Fiz uma resenha para o Amálgama, que começa assim:
Entre favores de poderosos, viagens instrutivas à Europa e saraus elegantes, pariu-se o modernismo brasileiro. Uma de suas erupções, a Antropofagia de Oswald de Andrade, foi concebida por amigos em torno de um prato de pernas de rã deglutidas com goles de Chablis gelado, num jantar ciceroneado pelo gordo provocador e sua mulher de então, Tarsila do Amaral. Das rãs a Hans Staden, Oswald começou falando delirantemente da evolução das espécies e terminou liderando um movimento de poucos desdobramentos práticos e muitas ideias fascinantes.
A importância dos batráquios na concepção do Movimento Antropofágico é contada em tons ligeiros por Raul Bopp, em um dos livros que, como rojões no Réveillon, pipocaram no começo deste ano, em comemoração aos noventa anos da Semana de Arte Moderna de 22, evento singular em que intelectuais se revoltaram contra os antigos modelos estéticos trazidos da Europa e defenderam, para o Brasil, novos modelos fortemente influenciados… pela Europa vanguardista — como nota Marcos Augusto Gonçalves em outro livro lançado neste ano, 1922: A semana que não terminou.
O livro de Gonçalves é um bom contraponto ao simpático livrinho de Bopp, editado pela José Olympio, Movimentos modernistas no Brasil (1922-1928). A semana… é jornalístico, mas detalhado, documentado e profundo o suficiente para contentar a qualquer acadêmico; Movimentos… é descosido, impreciso, impressionista, mas repleto de detalhes divertidos capazes de prender até quem nem tenha tanto interesse assim no modernismo brasileiro. É um exaustivo inventário de uma parte importante da intelligentsia brasileira, num momento chave de nossa formação cultural.
Bopp, participante do movimento, é um caso nada incomum de escritor que marcou lugar na literatura brasileira com apenas uma de suas obras. O épico Cobra Norato, poema mergulhado no sincretismo das lendas amazônicas e no projeto modernista de levar aos livros a fala brasileira, é sua contribuição à “luta para desafogar o ambiente dos canastrões, que ditavam as regras do bom gosto”. Seu livro sobre a Semana, publicado inicialmente em 1966, começa com o percurso dos movimentos de arte contemporâneos (dele), em um resumo fortemente influenciado pelas ideias do futurismo italiano (“a visão que o homem moderno forma … funde-se em valores dinâmicos”, “a arte moderna veio … seguindo os caminhos da máquina”). Futurismo seria, aliás, a palavra usada — e depois renegada — por Oswald de Andrade e colegas. Razoavelmente honesto, o resumo de Bopp derrapa ao falar do dadaísmo, “composto, em parte, de subartistas apátridas”, na visão míope do escritor. Mas cumpre a função de mostrar que, enquanto fervia a cena artística europeia, concentrada em Paris, o “velho conformismo” amarrava a expressão artística em formas que nada tinham a ver com a crescente metrópole industrial.
O resto, AQUI.
A Invenção da Mona Lisa
É arrancar o verniz antigo de alguma obra de Leonardo da Vinci para descobrir novidades _ antiguidades, no caso _ sensacionais. Foi assim com a Virgem e os Rochedos, que se descobriu não ter intervenções dos roliços discípulos do mestre; foi assim também com a Sant’anna, a Virgem e o Menino, que rendeu acusações de dano à obra (coisa possível, já que o artista fazia o diabo com os vernizes e as tintas misturados na tela). Agora, o fuzuê não se deu com Leonardo, mas com a obra de algum íntimo aprendiz, que teria acompanhado o pintor em tempo real, pintando sua própria Mona Lisa. Tirando o verniz escuro, descobriu-se uma Gioconda menos baleada, com detalhes que o tempo apagou do original. A notícia, para você que acaba de chegar da Antártida e não leu nenhum jornal desta semana, está AQUI.
Como minha implicância com Gisele Bundchen, mito cuja origem consegui traçar até seus quinze anos de idade, paparicada pelo Paulo Francis (talvez o primeiro a chamá-la, exageradamente, de mulher mais linda do mundo), a turma aqui do Sítio se rebela contra a transformação da Gioconda, de Leonardo, em aijisus supremo da arte da Renascença. Como Gisele, a Mona Lisa tem qualidades extraordinárias, e é única, a seu modo; mas, assim como a modelo brasileira não é o ápice e resumo da beleza feminina, a Gioconda é uma _ mas uma, entre outras _ das obras-primas de Leonardo.
Ah o sorriso. Como diriam os renascentistas, é o sfumatto, stronzo! Para um contemporâneo de Leonardo como Giorgio Vasari, não havia mistério, mas profunda beleza naquela “boca, cuja fenda termina em 
cantos de um vermelho que se une à carnação de seu rosto, e na verdade não parece ser feita de tinta, mas de carne”.
Leonardo, diz Vasari (que era meio cascateiro, vai saber isso é mesmo verdade), usou um truque “para eliminar aquela melancolia tão frequente na pintura e nos retratos”: “enquanto retratava a Mona Lisa, que era belíssima, por perto sempre havia pessoas a tocar ou a cantar, bem como bufões que a mantinham alegre”. E foi assim que conseguiu “um sorriso tão agradável, que mais parece coisa divina que humana, tão admirável por não ser diferente do natural”.
Em matéria de boca marota e sorriso discreto, Leonardo pintou na mesma época, com sorriso parecido e esfumado, algumas donas, ou melhor, a própria Madona, em quadro anterior à Monalisa, como a Nossa Senhora, Sant’Anna e o Cristo (ou o menino), velha obsessão cá neste Sítio, onde já contei como Sigmund Freud, nosso tarado favorito, via nesse quadro indícios da homossexualidade de Leonardo.
Vasari não endossa muitas das teses sobre o êxito da Mona Lisa, e, como botei num link aí em cima, é falso atribuir a Leonardo _ que a aperfeiçoou _ a invenção do sfumatto, essa técnica de mesclar as cores esmaecendo o contraste entre as áreas de sombra e luz. 
Vasari também descreve com detalhes os cílios da figura, (“representados no modo como nascem da carne, ora mais densos, ora mais ralos, obedecendo ao giro dos poros, não poderiam ser mais naturais”), o que confirma a tese dos especialistas de que as sucessivas intervenções “restauradoras” na obra acabaram por levar, com o verniz, as sobrancelhas e os cílios da pobre Mona Lisa. Espero ansioso a divulgação da cópia restaurada pelo Prado, para ver se nela mantiveram as pilosidades da moça.
Famosa, ela já era, e muito, no começo do século passado, quando Duchamp a submeteu a uma avacalhação dadaísta, pintando-lhe uns bigodes e pespegando-lhe um trocadilho no título.
Mas não tenho dúvida de que o começo da transformação da Mona Lisa em ídolo pop foi seu debut nos Estados Unidos, levada com as bençãos de André Malraux pelo charme da Jacqueline Kennedy. Entre 600 mil a 2 milhões de americanos inauguraram a acorrida em massa que depois ficaria a cargo de japoneses (e hoje, dos chineses) para conferir nem tão de perto o que é que a Gioconda tem. Tinha, já, um bruta vidro à prova de balas e um tamanho pequenininho, que invariavelmente frustra os visitantes. Só não frustra mais porque a maioria, afinal, está lá só para dizer que viu a moça de perto; se você perguntar a um deles o que há atrás da Mona Lisa muito provavelmente não saberão responder, apesar de terem comprado a canequinha com a reprodução na loja do museu.
O translado temporário da Gioconda foi um golpe de soft power, num momento ruim para Kennedy e de Gaulle, como lembra AQUI a crítica Lisa Liebmann. Rendeu um livro curioso, Mona Lisa in Camelot, sobre o papel da Carla Bruni, digo, da Jacqueline Keneddy, no esforço para que a Gioconda fizesse sua primeira _e única _ viagem transatlântica.
Para mim (e para mais um especialista de quem vi um video e não consigo lembrar de jeito nenhum), foi aí nessa viagem que sacramentaram a Mona Lisa como o ó-do-borogodó da arte renascentista. Uma injustiça com outros quadros do mestre, o que é uma vantagem para quem gosta de arte: para quem está afim de um sfumatto leonardiano, é possível apreciar, com calma e sem tumulto ou gente interessada, a Virgem das Pedras, no corredor do Louvre que dá acesso à sala onde turistas se acotovelam para (não) ver o retrato famoso da mulher do seu Giocondo.
A viagem da Mona Lisa à América foi fascinante, e pode ser vista em vídeo aqui abaixo. Os locutores se encarregavam, como tinha feito Vasari e fazem os babões de hoje com a Gisele Bundchen, de informar aos leigos que estariam experimentando uma visão próxima à revelação divina. “The ageless symbol of a timeless true (o símbolo eterno de uma verdade perene)”, como diz o sujeito abaixo:
Os detalhes, ah, os detalhes. De valor incalculável, a Gioconda exigiu uma apólice para eventuais reparos, apólice de US$ 5 mil:
“Everybody wants to meet the new girl in town”. Malditos filisteus pervertidos.
Se você quer conhecer as explicações tradicionais para a fama da Mona Lisa, tem esse video aqui, que algum dia uma boa alma legenderá em português:
Mas um blogueiro de línga nacional também andou falando do tema, AQUI. Ops, e AQUI. E AQUI.
Aforismos, o humor dos filósofos

(reconheceu os filósofos acima? não? então vá a página original, no último link abaixo)
O lema de quem pensa mal costuma ser: o que pensarão de mim?
Não concebo a ideia de que o pensamento facilita a vida. Ele a torna arriscada, e a compromete.
É o que penso, mas quem escreveu isso, aí acima, foi o filósofo Fernando Salvater, cujos aforismos involuntários foram coletados pelo argentino Andres Neuman (estrela na última Flip) e deram em belo texto, no supimpa novo portal de cultura do El País. Afinal, a filosofia é apenas mais um gênero literário. Quem diz isso sou eu, mas quem chegou primeiro a essa frase foi o Salvater também, maldito seja.
O texto do Neuman? AQUI.
A verdadeira música das esferas é um palíndromo
Parabéns por não ter deixado que o título aí em cima te levasse a mudar imediatamente de página. E vamos lá: o sujeito atribuiu a cada planeta uma nota musical, estabeleceu uma relação entre o ritmo de translação dos astros e a frequencia de repetição da nota e compôs essa música aí, que, ao repetir o alinhamento dos planetas completará o maior palíndromo já construído no mundo. Coisa que adoro, misturar conhecimentos, com astronomi,a música, matemática, linguagem e falta do que fazer. Isso turbinado ainda vai desbancar o Michel Teló.





