Chama-se Luis Castiglioni o mais novo personagem político dos pesadelos do governo brasileiro. Jovem, dinâmico e de discurso populista, é, por isso, comparado a Fernando Collor – de quem se diferencia porém pela agenda econômica nacionalista e anti-privatista. Foi dele a iniciativa de convidar o secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld, ao Paraguai, em uma visita que acendeu paranóias no Cone Sul pois se seguiu à decisão paraguaia de firmar um acordo militar com os EUA com cláusulas secretas e imunidade jurídica aos marines que desembarcarão no país vizinho.
Castiglioni, com declarações pró-acordo comercial bilateral com os Estados Unidos, irritou Argentina e Brasil e reacendeu, no Paraguai, rancores do século XIX, do tempo da Tríplice Aliança – a que uniu os hoje outros três sócios no Mercosul em uma guerra genocida contra o caudilho paraguaio Solano Lopez.
Vice-presidente paraguaio, ele disputa com o presidente Nicanor Duarte Frutos, poder no partido Colorado, governista. Quer ganhar as eleições do ano para a presidência do partido, credenciando-se à sucessão de Duarte Frutos. Defende maior vinculação política do país aos Estados Unidos. Promete incomodar os brios regionalistas do Mercosul e repete, nisso, o ex-presidente uruguaio Jorge Battle, que, às vésperas de passar o governo ao socialista Tabaré Vasquez, firmou com os americanos um acordo de proteção a investimentos com todas as cláusulas contra as quais se bate o Itamaraty na arena internacional.
A proposta de Castiglioni, de acordo de livre comércio com os EUA, ajuda a desmoralizar o já capenga Mercosul, mas não irá muito além disso. Se os paraguaios já se queixam que não podem vender manufaturas ao Brasil devido às severas normas técnicas de cá, é de espantar que imaginem receber tratamento mais leniente nas alfândegas americanas. Dificilmente os Estados Unidos se engajarão em um acordo com país de tão diminuta importância política e econômica. Recusaram proposta semelhante, há poucos anos, do Uruguai de Battle.
Interessa, sim, aos EUA, a colaboração do país vizinho com os serviços de inteligência americanos, preocupados com o financiamento ao terrorismo por comunidades paraguaias de migrantes originados do Oriente Médio – Castiglioni (sempre ele) já anunciou que o FBI abrirá um escritório no Paraguai.
Crise no Mercosul dispensa uso de peneira
Faz bem o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ao anunciar que a resposta às cotoveladas paraguaias deve vir com ações brasileiras de estímulo ao crescimento econômico e investimentos no país vizinho. Só assim se pode criar e incentivar, no Paraguai, forças políticas e econômicas capazes de melhorar a situação institucional e enfrentar a corrupção endêmica do país – que prejudica o combate ao crime no Brasil. Sobre as dificuldades, basta lembrar que um dos empresários donos de um dos maiores jornais locais já tentou registrar no país, como marca própria, o selo da Receita Federal Brasileira – costumeiramente falsificado nos cigarros contrabandeados.
Político em um país sem mar, Castiglioni surfa na onda de ressentimento contra o Brasil, grande sócio do Mercosul, co-proprietário da usina de Itaipu, país de origem dos brasiguaios, grandes proprietários de terra numa nação empobrecida, e promotor de ações impopulares de moralização na fronteira sustentada pelo contrabando.
Os paraguaios acusam o Brasil de manter artificialmente baixas as tarifas de Itaipu, que produz o equivalente a 25% do consumo brasileiro. Querem reajuste e liberdade para comercializar parte dessa energia com outros países. Também hostilizam produtores rurais de origem brasileira, que acusam de vilões ambientais. As exportações de lá para o Brasil caíram 26,5% em 2004, e continuam em queda. As importações aumentaram 31,3%, enquanto o Paraguai aumentava vendas em até 134 % ao Chile, por exemplo. Até julho, o déficit comercial com o Brasil passou dos US$ 300 milhões.
Encantado com notícias favoráveis ao governo publicadas no “New York Times” – o jornal cujo correspondente o governo Lula quis expulsar do país por ofensas ao presidente da República – o ministro Amorim se equivoca, porém, ao atribuir os últimos atritos a maldades da imprensa regional. Há uma crise real de relacionamento. Com motivos reais de desgosto e políticos dispostos a amplificá-los, culpar os jornais pelas querelas com o Paraguai equivale a tentar bloquear os raios solares com uma peneira contrabandeada.



on Sep 22nd, 2005 at 00:55
…”culpar os jornais pelas querelas com o Paraguai equivale a tentar bloquear os raios solares com uma peneira contrabandeada.” hehehe, isso me faz pensar que o wisky que se compra no Paraguai é falsificado mesmo no Brasil, hehehe.Mas, sobre as telas, saiba que o valor da obra artística maior, por sua qualidade, transcederá aos séculos com a imponente eternidade das pirâmides. E, sobre a camiseta do senegal é algo que deve ser guardada para sempre, mesmo que isso te faça lembrar do lula, hehehe.