O professor Paulo Roberto de Almeida mandou, corro a atender: estava eu na Venezuela…
… e quando cheguei ao Hotel Hilton, em Caracas, descubro que se encerrava, naquele dia, um Congresso de Sexologia. Nada a ver com os prognósticos dos analistas para a relação futura entre Hugo Chávez, recém-ingressado no Mercosul, e seus novos parceiros, Lula, Kirchner, Tabaré Vasquez, Nicanor Duarte Frutos. Entendi como uma espécie de tentação para povoar de trocadilhos e comparações infames este Sítio, que é de família e passará ao largo. Vade Retro Satana. Fiquemos com nosso contemporâneao demônio de salão, o interessante e intrigante Hugo Chávez Frias.
O motorista de taxi que me leva do aeroporto ao hotel me diz que era prestador de serviços na PDVSA, a poderosa petroleira venezuelana, e que perdeu emprego com as paralisações promovidas pelos opositores de Chávez. Diz que o governo chavista lhe deu condições de frequentar universidade, alimentar a família e sonhar com o futuro. Já o motorista que, no fim da viagem, me levou do hotel ao aeroporto, acusava Chávez de fazer política no continente esquecendo-se dos venezuelanos, imprecava contra as milícias bolivarianas estimuladas pelo presidente, a quem chamava , não sei por quê, de “anormal”. A pluralidade impera na praça venezuelana. Melhor do que em São Paulo, onde a unanimidade malufista se manifestava ao clique dos taxímetros.
As pessoas falam abertamente contra Chávez, os jornais o criticam, sem excessos e com certo temor, as livrarias trazem obras descendo a lenha no líder bolivariano. Não é um país de perseguição cruenta às vozes dissonantes, penso eu. Já falar com o governo é uma aventura de resultados geralmente infrutíferos. Ineficiência ou centralismo excessivo? Uma mistura dos dois, parece. Grande polêmica local: o preidente mandou ou não distribuir fuzis a civis? É uma rima, mas nem de longe solução. Ao deixar o país, leio nos jornais que não.
No Dia da Independência, Chávez desfila seus milhares de soldados, com fuzis que pretende fabricar em território venezuelano, e discursa em favor de um Exército do Mercosul (cruz credo). O presidente paraguaio pede socorro a Chávez na briga que vem travando com Lula, para renegociar a dívida da Itaipu binacional com o Brasil. Chávez promete um grupo de trabalho e diz que tem de pedir benção antes a Lula. No Paraguai, membros do partido Colorado, o mesmo do presidente Duarte Frutos, o acusam de querer usar a grana de Itaipu para fazer campanha eleitoral. Lula insinua isso, quando lhe perguntam sobre as demandas paraguaias e os estrilos bolivianos de Evo Morales.
Kirchner, que detesta cerimônias presidenciais e já fez forfait em algumas promovidas por Lula, fica em Caracas opor dois dias, põe flores em monumentos, asiste à parada. E vende uns titulozinhos da dívida a Chávez. Argentinos me informam que, dos quase US$ 3 bi comprados pelo venezuelano em bônus da dívida argentina, só restaram uns US$ 200 milhões em Caracas: o resto foi vendido com lucro no mercado secundário, até por venezuelanos proibidos de movimentar livremente seu dinheiro, como no passado.
Os preços são congelados, para a cesta básica, na Venezuela. Os jornais noticiam que a inflação vai pasar dos dois dígitos neste ano, e os maiores aumentos são em itens que deveriam estar sob controle rígido do governo.
Acostumados com as delícias do mundo neoliberal, brasileiros tentam pagar a conta do hotel em dólar. Não pode. O câmbio é controlado na Venezuela. Sabe-se lá se os mercados já não teriam posto Chávez de joelhos, não fosse esse controle esdrúxulo.
Ah, pode-se comprar dólar nas casas de câmbio. É feriado, estão fechadas? Bom, nesse caso, tem um sujeito no hotel que te leva para uma salinha escondida e te troca quanto quiser, em moeda sonante americana. Câmbio negro, já tinha até me esquecido de como era isso. Tremenda nostalgia, me dá essa Venezuela. Todos temos em nós um bolivariano doido para desfraldar bandeiras na primeira parada.
Na ida e na volta, passamos por enorme engarrafamento, da ponte de ligação na estrada entre a cidade e o aeroporto. Que desmoronou, de podre. Resultado de décadas de oligarquias corruptas, me diz o taxista que me pegou no aeroporto. Demonstração da incompetência de Chávez, que distribui dinheiro pelo continente mas deixa acontecer um troço desses na própria capital, me diz o taxista que me deixou no aeroporto.
Compro o El Nacional, no embarque e vejo uma notícia de que há “vaginas e penes toxicos”. Esqueci o jornal no avião, jamais saberei do que se tratava. Belo encerramento para uma viagem que começou com um congresso de sexologia.
Será divertido, esse Mercosul com a Venezuela de sócio.



