
O sábio Nélson Torreão um dia me mostrou estupefato como a gente vai ficando de cabelos brancos quando envelhece enquanto as mulheres, essas vão ficando ruivas. Ele também me deu, certa vez, uma grande lição: o grande problema dos jornalistas no jornalismo econômico não é desconhecer economia, é não saber aritmética.
Não acredito que esse seja o caso de um jornalista que admiro muito, um dos melhores repórteres do país, e que, na Folha, hoje, produziu uma reportagem capaz de desmoralizar todos meus esforços _ aqui nesse Sítio e nas caixas de comentários blogosfera afora _ contra a tese estúpida da conspiração de midia contra o líder mal informado e companheiro distraído Lula da Silva.
Vão dizer por aí que a matéria mostra como certos jornais são capazes de violentar a notícia para atacar o Lula. E, embora eu não concorde com a tese do jornalismo conspiratório, posso entender por que o texto publicado hoje dá margem a esse tipo de acusação. A matéria recebe o título “Reduto de Alckimin banca triunfo de Lula”, e guardei, para dar exemplo em salas de aula sobre como se pode usar a estatística e as percentagens para distorcer a realidade, ou defender uma tese mal-ajambrada.
Um dos truques, ou erros mais comuns quando se usa percentagens em um texto é desconhecer que todo percentual é um número relativo. Dizer, por exemplo, que sou responsável por 100% dos acidentes no meu bairro pode significar que sou um desastre ambulante, se houve 300 acidentes nele; ou só expressar o meu azar de ter me envolvido no único acidente que tive, na minha vida, por coincidência também o único que jamais aconteceu na minha vizinhança. Trezentos ou um são quantidades bem diferentes, mas podem ambos ser 100% de alguma coisa.
A matéria que vou comentar faz malabarismos assim. Se eu gasto com imposto apenas 1% de meu salário, e você gasta 30%, eu posso, ainda assim, dizer que pago proporcionalmente mais imposto. É só eu ganhar tanto dinheiro que, em valores absolutos eu pague R$ 100 milhões e você ser tão pobre que sua merreca de salário gera só R$ 1 mil em tributos. Proporcionalmente à arrecadação total, eu pago mais, embora proporcionalmente à renda quem pague mais seja você.
Por isso que o Delfim Netto costumava dizer que, torturados, os números são capazes de dizer qualquer coisa. Quando eu dava aulas, dizia sempre aos pobres alunos (pobres por me terem como professor): desconfiem sempre das percentagens, são o capanga favorito dos sofistas e embusteiros.
***************************
Bom, volto ao assunto deste post. A tese da matéria é : quem paga imposto é a região rica do país, que vota em Alckmin, e esses impostos vão servir para pagar a bolsa família, que banca as famílias pobres eleitoras de Lula por gratidão pela ajuda em dinheiro.
Mensagem subliminar: Lula usa dinheiro dos outros, os ricos, para fazer populismo e ganhar apoio dos pobres. Ou: São Paulo carrega esse país nas costas, e os nordestinos elegem um presidente contrário a seus interesses com o dinheiro dos sofridos contribuintes paulistas.
Não vou entrar na discussão sobre a tese, ou sobre a ideologia implícita nela. Me atenho aos números e raciocínio usados para sustentá-la.
(Antes que a petezada comece a preparar bonequinhos de vudu com o nome do repórter, afirmo que, na pressa e correria do fechamento dos jornais, nem sempre se escolhem as melhores palavras, as melhores frases, e muito do que passa por sacanagem, nas teorias conspiratórias em voga, às vezes nada mais é que atropelo na escrita; e que considero compreensível que alguns repórteres, apesar de todo o cuidado com a imparcialidade, com a técnica e a ética, deixem escapar preconceitos e concepções ideológicas. Jornalista é humano, é falível, o que diferencia os sérios dos picaretas é a capacidade de reconhecer e corrigir os erros _ não a de não cometê-los, tarefa impossível)
Vamos aos números:
Logo no lead, o primeiro parágrafo, diz a matéria: “O peso regional da carga tributária mostra que … Alckimin venceu no primeiro turno nos lugares onde se paga propocionalmente mais imposto no país. O presidente …. Lula… ficou na frente onde se paga menos”.
O que esconde essa afirmação aparentemente factual? Ora, o texto não diz “proporcionalmente” a quê. Deixa implícito.
Os paulistas pagam mais impostos que os nordestinos? Digo, proporcionalmente à renda de cada um? A matéria não traz números que permitam afirmar isso. E, suspeito, como a tributação é altamente regressiva no país, os nordestinos devem pagar mais imposto, proporcionalmente à sua renda, que é mais baixa em relação ao resto do país. Os números da matéria se referem a carga, em cada Estado, “proporcionalmentre” ao total do país. Claro, a maior parte das indústras e da atividade econômica do país está no Sul e Sudeste, portanto lá está a maior concentração da renda nacional, e, por extensão, dos impostos pagos.
É curioso, em outra reportagem do jornal, da qual essa é complemento, usam-se os números absolutos, e não os proporcionais, para dizer que os sulistas e a turma do sudeste pagam mais imposto per capita. Nesse raciocínio, o jornal deixou de lado os percentuais, que sustentam todo o raciocínio da outra matéria, e usa só números absolutos.
Eu também alertava os estudantes contra essa prestidigitação: quando os números absolutos são pequenos, e a fonte quer nos impressionar, ela usa percentuais, que podem ser altos (a empresa vendia R$ 1 por dia, agora vende R$ 2, teve um aumento de 100%!), e vice-versa (quando o PIB cresce só 0,1%, ainda assim é um aumento de milhares de bilhões de reais).
A continha da matéria citada acima, para dizer que os sofridos sulistas pagam mais imposto é simples: pega-se o total de tributos pagos divide-se pelo número de habitantes. Claro que, numa conta dessas, os paulistas, mineiros, cariocas e flumineneses, gaúchos, catarinenses e paranaenses que concentram a renda nacional, sempre pagarão mais que o resto da brazucada.
Mas, e proporcionalmente à renda individual? Como o Sul e Sudeste concentram a riqueza nacional e o milionários do país, gostaria muito de saber se, apesar de pagarem mais em termos absolutos (em reais) se os habitantes dessas regiões não acabam pagando menos, em termos relativos, como proporção da renda que recebem.
Mas isso o jornal não conta, nem se interesseou em checar.



on Oct 26th, 2006 at 17:38
Se a reportagem a que você se refere é “81% da receita federal vem do Sul e Sudeste” há uma confusão básica nela. Não há relação entre o local de arrecadação e quem arcou com aquele imposto. Se eu moro no nordeste e tenho uma conta no Bradesco, todos os impostos incidentes (CPMF, IOF, etc) são “arrecadados” em São Paulo, pois esse é o local da matriz do Banco (embora a carga tributária tenha pesado no meu bolso de nordestino).Se eu trabalho para uma empresa com matriz em São Paulo, o imposto de renda na fonte também é “arrecadado” em São Paulo (embora, obviamente, o custo seja meu).E assim por diante…No último parágrafo da reportagem (como dizia Aloysio Biondi, a verdade, nas reportagens de economia, sempre aparece no último parágrafo), o autor reconhece que a maior carga tributária por habitante é no DF e explica: “Esse expressivo valor em comparação aos demais Estados tem uma explicação, segundo o estudo: os órgãos e empresas públicas federais centralizam todo o recolhimento dos tributos em Brasília.” C. q. d.
on Oct 26th, 2006 at 18:00
O Alon escreveu um post no blog dele sobre este seu post.
on Oct 26th, 2006 at 19:42
Quando jornalistas ouvem alguém dizer comentendo um delito:”vou dizer que fui roubado para fazer estas fotos chegarem até vocês jornalistas” E os jornalistas omitem isso, deliberdadamente… então não se trata de “petezada com tese estúpida de conspiração da mídia”É fato, caro jornlista!Aliás, eu sempre desconfio de quem adjetiva antes de argumentar![]´s
on Oct 26th, 2006 at 19:56
Obrigado pelos exemplos, patrick. Sérgio, caro xará, lamento discordar de você. Uma coisa é a imaginária conspiração, outra os acertos do dia a dia que ocorrem entre jornalistas, individualmente, no afã de subir na carreira. Essas fraudes contra o leitor, como a que você aponta, infelizmente, acontecem, têm seus defensores na categoria e são condenáveis, mas são provocadas mais por objetivos individuais ou comerciais que por projetos ideológicos como alguns querem ver. Esse é o problema dos críticos da midia, alguns bem-intencionados, outros oportunistas: é preciso reconhecer os problemas na imprensa, apontá-los e lutar para corrigí-los. O discurso que classifica a midia como apenas uma máquina ideológica a serviço da direita só alimenta o cinismo dos jovens profissionais que acreditam nisso e querem se dar bem, e dos stalinistas que, a pretexto da conspiração de midia, usam dinheiro público para financiar, sem consulta popular, pasquins dedicados a defender o politburo de plantão.A crítica à midia leva a seu controle social. A tese da conspiração da midia só estimula fogueiras de revistas, jornais, livros…
on Oct 26th, 2006 at 21:13
Caro Sérgio: “Projetos inidividuais e comerciais” não são “projetos ideológicos”? Quando esses projetos “inidividuais” e “comerciais” se sobrepõem ao compromisso pessoal e profissional é porque estão imbuídos -muito provavelmente em forma inconsciente- da ideologia de ascenção pessoal e profissional ao custo de distorcer (e eventualmente conspirar contra) os dados factuais…E “petezada” é com aspas ou sem aspas? Engraçado que para desfazer eorias conspiratórias se arrole em bloco petistas e críticos da mídia entre os conspiradores…Um grande abraço.
on Oct 26th, 2006 at 22:25
Caríssimo Román, tens e não tens razão. Todo ato é político, toda ação é guiada pela ideologia do agente. Mas a postura individualista e anti-ética de alguns jornalistas tem uma carga ideológica apartidária; é expressão dos desejos e concepções individuais do sujeito. Bem diferente é a acusação que fazem à imprensa, de agir deliberadamente, ideologicamente, para prejudicar o governo petista e facilitar a campanha do adversário de Lula, o Alckmin. Em resumo, uma coisa é joralista picareta, ou oportunista e carreirista. Outra é “conspiração de midia” para servir aos interesses da burguesia. Embora uma coisa possa servir à outra, continuo brigando contra a visão reducionista e mal-informada de que o noticiário sobre escândalos na política é fruto de uma conspiração dos jornais, tvs e rádios contra o governo de Lula.Já, quanto ao “petezada”… como disse acima, tem vezes que os jornalistas, na pressa, fazem escolhas semânticas infelizes. Essa foi uma. Pensei num termo jocoso, que não soasse pejorativo. Errei na escolha, redondamente. Peço deculpas aos amigos petistas e não-petistas que discordam de minha opiniões neste Sítio. E podem responder, que entro no coro: petezada, uma ova!
on Oct 27th, 2006 at 00:00
muito bom o post! é por essas que sou leitor assíduo de sergio leo.
on Oct 27th, 2006 at 01:12
Olá Sérgio Leo!Primeiro, gostaria de dizer que ganhaste um leitor! Aprecio quando as idéias são discutidas, sem medo da divergência, e no campo das idéias (por mais redundante que isto seja!)Segundo, não me considero crítico da grande imprensa (por falta de competência para tal!) mas quando vejo a insistência com que ela “cobriu¨ os escândalos do Governo LULA e a cegueira com que cobriui os escândalos do governo FHC, sou obrigado a concluir que ela é, na melhor da hipóteses, parcial!O Luis Nassif, no seu blogue, coloca o ponto mais importante: Essas eleições são o marco de uma nova ERA! A chamada grande imprensa não dá mais as cartas!E se ela não fizer a auto-crítica pública dos seus erros (individuais, comerciaais, etc…) tenderá a ter apenas um papel coadjuvantna formação de opinões!Abraços pra ti!