Veríssimo e a cafetina

O culto nacional à marafona, às cachorras, às pistoleiras transformadas em apresentadoras de TV e às vadias dos BBBs só poderia acabar onde acabou: nossas cafetinas já são produto de exportação.

Até recentemente, a única marca visível da brasileirada em Nova York, além das hordas de turistas, era a rua 46. Ela deixou de ser a Brazil Street há muito tempo, desbancada pelo real forte e pelo contrabando sul-americano, e hoje funciona como ponto de encontro de malemolentes imigrantes verdamarelos em época de Carnaval. Agora, porém, podemos nos orgulhar de ter sido uma compatriota a testemunha-chave que botou na rua um governador hipócrita eleito pelos novaiorquinos. Êta nós, digo, êita ela. Prevejo um novo marco na saudação de turistas em reconhecimento à cultura nacional lá fora:

_ Brazil? Oh, Brazil! Ronaldo! Ronaldínou! Kakáh! Andreia Schwartz!

O brasileiro infla o peito e diz: é isso mesmo, Braziul, o da cafetina que derrubou o governador. Ouvi gente reclamando porque a Infraero deu tratamento VIP à moça na chegada ao Brasil, com furgão exclusivo e despiste da imprensa. Merecia carro de Bombeiros e desfile a céu aberto. Quem já derrubou um governador nos States que atire a primeira pedra.
Demorei a falar disso porque é tema delicado; nossos corpos nos pertencem, e, se, por falta de opção, cultura ou por gosto, as moças querem aproveitar o capitalismo e se transformar em mercadoria, não será este Sítio quem vai condenar as praticantes de uma profissão tão, tão bíblica.

E, aí, o Veríssimo, esse filósofo da contemporaneidade disfarçado de humorista, fez a mistura irresistível, juntou bandalheira com etimologia, dois assuntos dos quais não entendo nada, mas que me chamam uma atenção tremenda. Qual a origem da palavra cafetina?, pergunta ele, nas páginas do Estadão.

Etimologia, como se sabe, é campo aberto para chute de todo jeito; já vi picareta viajar em interpretações estapafúrdias após consulta apressada ao dicionário e, flagrado na besteira, botando a culpa no pobre do Houaiss. Dúvida do Veríssimo também é coisa séria, e, só por isso, me arrisquei em uma investigação nesse terreno perigoso (de perigo, do latim pericullum: ensaio, tentativa, prova, ensaio literário; risco, doença, mal. Pelo menos é o que diz o Houaiss):

***

_ Vejamos, o que o senhor tem aqui? _ perguntei ao sujeito gordinho, calvo, com óculos grandes e ar inteligente que havia entrado em meu escritório naquela tarde modorrenta, estragando a modorra e espalhando as baratas, que se refugiaram na pilha de pastas do arquivo morto, ao lado da porta.

_ Estou à procura da etimologia da cafetina; tudo que sei é que vem do lunfardo, mas não fiquei muito satisfeito com essa explicação _ respondeu o sujeito, sem me olhar direito.

_ Hummm _ resmunguei, olhando para umas gotinhas de suor na cabeça do careca, que, não sei porque, me parecia ter cara de saxofonista _ Acho que conheço esse tal de Lunfardo. Me falaram desse tipo quando eu andava por uns lugares barra-pesada em Buenos Aires. Só tem uma coisa, camarada: isso não vai ser barato.

_ Dinheiro não é problema _ me disse o sujeito com cara de saxofonista, ganhando minha simpatia imediata. Eu disse que ele tinha um ar inteligente? Vi, pelo olhar, que era um intelectual. Geralmente não gosto de intelectuais, mas aquele sujeito tinha charme.
A grana ele me explicou ganhar de jornais e palestras que dava pelo país afora (as palestras, não os jornais). Aquilo me pareceu suspeito, o sujeito era claramente um tímido, não parecia capaz de palestrar por aí. Mas não costumo questionar a origem do dinheiro dos meus clientes, muito menos quando passa ao meu bolso em grande quantidade. Fui a Buenos Aires, para encontrar o tal Lunfardo, única pista da perdida etimologia da cafetina. Só no avião, quando mastigava uma barra de cereal, percebi que nem tinha perguntado o nome da tal alcoviteira. Parecia enrolada num caso com um governador estrangeiro, provavelmente algum paraguaio. Se a pista do Lunfardo não desse certo, quem sabe eu teria de esticar a viagem a Assunção.
Após uns contatos, soube que o Lunfardo era um elemento entrosado. “Tem ligações com o italiano, o alemão, o espanhol”, me contou uma jovem simpática, loura pintada, muito maquiada, com quem encontrei em uma livraria, onde eu havia entrado à procura de algum lugar onde tomar café. A loura era até bonitinha, mas logo vi que buscava casamento (“estoy sin novio“, me disse, lambendo os lábios, com um sorriso maroto. “Vá continuar sin noivo si depiender de mi, mas qualquer cosa estamos allá” respondi, com meu espanhol aprendido na vida dura, e meu melhor sorriso canalha. Ela fechou a cara e saiu da livraria batendo o salto alto. Estranho, geralmente meu sorriso é infalível).

O único italiano que eu conhecia trabalhava perto dali, na Universidade de Buenos Aires. Rocco Carbone era seu nome, e era doutor, e calabrês. Vi que estava com sorte: ele não só conhecia o tal Lunfardo como sabia até o que era etimologia, o negócio da cafetina que meu cliente procurava e que, na pressa até esqueci de perguntar que diabos era. “Tem a ver com língua”, me disse. Eu já desconfiava, ninguém se torna cafetina de sucesso sem diversificar os negócios na única atividade humana em que não é desleal acertar abaixo da linha da cintura.

Rocco vasculhou a estante repleta de dossiês, e me deu um, do qual não entendi patavina. No título, falava de um certo Roberto Arlt (“esse Rocco”, pensei, olhando compadecido a confusão de consoantes atropeladas no sobrenome “nunca vai aprender a datilografar direito”).
Cheguei a pensar que Roberto Alto seria o verdadeiro nome do Lunfardo, ou talvez, tivesse alguma relação com a cafetina da etimologia? “Não”, me explicou o Rocco, num espanhol do qual eu conseguia compreender um terço. Pelo que entendi, o Roberto não tinha nada a ver com a cafetina, embora andasse com rufiões e malandros de rua. Também não era o Lunfardo, mas era íntimo dele, me garantiu o calabrês, antes de me botar para fora do gabinete, irritado com minha incapacidade de entender seu espanhol incompreensível.

Na porta, me deu o do
ssiê, no qual havia marcado um trecho, em tinta amarela:

_ Entregue a seu cliente, ele vai entender, porca miséria!

Temperamentais, esses italianos. Então o dossiê trazia informações de um íntimo do Lunfardo, hein? Eu estava chegando perto, podia sentir o cheiro. Mas minha animação evaporou, quando pus os olhos no que o maldito Rocco havia grifado no tal dossiê:

Cafishio: la prostitución en Arlt es un rasgo de alta circulación. O cafisho, en su forma sincopada. Con sus variantes: cafiolo, canfinflero, cafife. O las formas vésricas shofica y fioca217. Palabras de fuerte economía y eminentemente connotativas. ¿Por qué? De inmediato: porque se refieren a un vividor o un aprovechador, pero también al rufián que sólo explota a una mujer (Gobello 1998: 54). Y dos: se distinguen de caften, palabra que procede probablemente de kaftan, voz turca de origen persa (ibid.: 49; también, Teruggi 1998: 63) y que significa rufián u hombre que tiene varias mujeres. Y como si esto no alcanzara para demostrar la economía de esta palabra, su eficacia designativa y sus connotaciones, valga recordar también que:
Procede del ya perdido cafifero y éste de la expresión tirar el cafife, que parece corresponder al germanesco tirar el cairo y al véneto tirar il calesse: hacer el rufián.

O texto era grafado no mesmo espanhol ininteligível falado pelo Rocco (e por quase toda a Buenos Aires, aliás, nem parecia a mesma língua falada pelo dono do restaurante espanhol, no térreo do prédio onde funcionava meu escritório). Vi, porém, que lá estava a palavra Caften, masculino de cafetina. Falava também em uma turca de origem persa.

A coisa estava se complicando. O Oriente Médio estava envolvido no negócio. Devia ser a tal da Tríplice Fronteira, eu havia lido sobre isso. Hoje em dia não há crime que não tenha alguma conexão com o terrorismo internacional; fiz bem em cobrar pela tabela mais alta, pensei. Talvez eu fosse mesmo obrigado a comprar uma passagem para Assunção.
Quando telefonei ao cliente, para contar dos resulatdos da investigação, ele não entendeu, mas me pediu que enviasse a página marcada por Rocco, por fax, para um número em Porto Alegre. Minutos após o envio, ele me ligava, eufórico.

_ É isso! É isso! O lunfardo foi buscar o caften e caftina no turco, na fala dos imigrantes ou dos comerciantes! O Houaiss não registra, mas Cafta é também uma roupa turca, de sultões, vestida em tribos de homens com muitas mulheres! Por metonímia e por metáfora, acabou designando o cafetão, na gíria portenha!!!!

Meu cliente havia enlouquecido. Cafta, qualquer um sabe, é espetinho de carne em restaurante árabe. De que imigrantes ele estava falando? Que comerciantes? Que tribos de homens com muitas mulheres? Seriam amigos da cafetina? De onde saiu esse Uais do registro? E de que cafetão ele estava falando? Nisso que dá me meter com um intelectual; foi receber um texto em espanhol arcaico e o cara desandou a falar grego.

Mas me mandou direitinho a grana combinada, nem quis que eu fosse ao Paraguai. Fiquei sem saber se a cafetina encontrou a etimologia perdida, mas também sou pago para não fazer perguntas.

As baratas ainda saíram ganhando, terão migalhas pelo resto do mês. E uns pedaços de espetinho de carne, que comprei no árabe no fundo da galeria, no térreo do prédio.

8 Comentários on “Veríssimo e a cafetina”

  1. #1 carcamano
    on Mar 31st, 2008 at 18:31

    O texto nem precisa comentar: genial como a maior parte do que faz o Veríssimo.Mas me intriga um dado na reportagem do estadão indicada por você: quanto vale R$ 15 mil dólares?

  2. #2 Sergio Leo
    on Mar 31st, 2008 at 19:15

    Hehe, valem mais ou menos € 12 mil francos, carcamano…Qual texto v. está elogiando, meu caro, o do Veríssimo, para o qual não encontrei link, ou o meu mesmo?

  3. #3 Luiz
    on Mar 31st, 2008 at 19:56

    É, como você disse bem, “nossos corpos NUS pertencem”.

  4. #4 aiaiai
    on Mar 31st, 2008 at 22:07

    Esse texto é seu…também achei que era do veríssimo…acho que não tem elogio melhor, no caso, né não????

  5. #5 carcamano
    on Apr 1st, 2008 at 12:28

    Oh Sérgio, entendi que esse texto noir era do Veríssimo. Bem, como disse o aiaiai, não poderia ter feito um elogio melhor.

  6. #6 Sergio Leo
    on Apr 1st, 2008 at 19:48

    Obrigado pessoal, estou lisonjeadíssimo; e o fato de vocês terem se confundido é sinal de que o texto que abre o post está confuso pacas. Já o Veríssimo, se passasse por aqui, provavelmente botaria o nome de vocês numa lista negra; não fosse o fato de usarem pseudônimo…

  7. #7 Anonymous
    on Apr 8th, 2008 at 23:30

    Sergio me hizo cierta gracia tu texto, digo, la version blogada de mi mismo como personaje. Ta bien, viejo. Pero tengo una curiosidad, como y porque leiste o buscaste mi Imperio? Saludos, Rocco Carbone

  8. #8 Sergio Leo
    on Apr 8th, 2008 at 23:37

    Jeje, caríssimo mestre, me gustó muchissimo su trabajo quando lo encuentré buscando referencias sobre el lunfardo. Tengo una passión especial por literatura latinoamericana, y sus comentários sobre Arlt me impresionaran. Además, su nombre estaba perfecto para el personaje que tenia presente… Que bueno que le gustó; espero que lo reciba como un homenaje y invitación a los frecuentadores deste Sítio para que lo lean…