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O lixo do Rauschenberg


Ele foi comparado a Picasso por Jerry Saltz,crítico rítico do Village Voice, o mítico pasquim distribuido gratuitamente em Nova York. Ninguém, além de Picasso, teria incorporado tantos elementos do mundo ao trabalho artístico como Robert Rauschenberg, que morreu no começo da semana passada.

Foi o sujeito que ligou o expressionismo abstrato dos anos 50 à arte Pop que veio a seguir, e, de quebra, virou um dos papas dese tipo de arte conceitual, que dá prioridade aos processo de criação e aos materiais usados, mais que à forma final, a uma possível mensagem, ou ideal estético. O tipo de coisa que perturba o leigo e vem sendo tão apedrejado por certos críticos de arte alheios ao metier.

Os “combines”, montagens de objetos e materiais disparatados, como esse simpático bode empneuzado aí em cima, são uma das marcas registradas de Rauschenberg, que abriu uma estrada gigantesca de possibilidades para os artistas que vieram a seguir.

Os que procuram na arte coisas bonitinhas para adoçar a alma têm dificuldades compreensíveis de engolir artistas como o Rauschenberg _ que legitimou muita inovação no campo da Arte, mas, é verdade, abriu a cancela também para muito picareta, artistas de fórmula pronta se fazendo passar por gênio iconoclasta.

Os jornais brasileiros escolheram bem uma frase dele que traduz uma certa didática do mundo, a razão que faz parte do método construtivo lá dele: “Tenho pena das pessoas que pensam que as coisas como os pratos da sopa, espelhos ou garrafas de Coca-cola são feias porque estão cercadas por coisas dessas todos os dias, o que deve fazer delas miseráveisâ€.

Picasso colava recortes de jornais nas telas cubistas; Rauschenberg fez montagens com tudo, até coisa catada no lixo. Num dos trabalhos mais famosos, pegou os próprios lençóis, edredons e travasseiro e os pintou com esmalte, pasta de dente e temo descobrirem o que mais.

Embora o objetivo de artistas como Rauschenberg seja bem mais que isso, os trabalhos perturbadores que eles produzem têm essa capacidade de trazer a atenção para as coisas de que estamos cercados, para a possível beleza do cotidiano mais vagabundo. Rauschenberg fala de processos de construção do mundo, do olhar crítico ou deslumbrado sobre o universo de imagens que nos cerca e condiciona a maneira de percebermos a realidade. Mas há quem diga que falta na obra de Rauschenberg, em seu trabalho de coleta de significados, um botãozinho de edição, de escolha e seleção. Um certo esforço artístico de descartar experiências mal sucedidas na tradicional tentativa artística de deixar uma marca no mundo.

Nos anos 60, Rauschenberg também trabalhou com colagens de imagens pré-fabricadas, transferidas em tela por serigrafia e trabalhadas com pinceladas expressivas, do tipo que fazia o gosto dos expressionistas abstratos que dizem terem sido contestados por ele. Uma das peças mais famosas do Rauschenberg, aliás, é o “De Kooning apagado”, que se trata de um desenho fornecido pelo expressionista abstrato Willelm De Kooning ao amigo Rauschenberg, que o apagou com uma borracha. Não sei o que o Ferreira Gullar diria disso.

Falo do Rauschenberg só porque, por uma dessas coincidências que costumam avacalhar o trabalho de quem trabalha em publicação mensal, o artista morreu logo na semana em que chegava às bancas a revista Art News, com uma matéria chamada em capa sobre … “A confusão com o lixo de Rauschenberg”.

No caso, a coincidência tornou mais interessante a revista, que, é bem capaz, deve sair com o morto ilustre na capa da próxima edição. Lixo, no caso, é lixo mesmo: a história, infelizmente indisponível na Internet, fala de um sujeito que quando garoto achou uns negativos coloridos na lata de lixod a casa do artista, alguns assinados RR, e, anos mais tarde, copiou e passou a vender (por até US$ 10 mil) as “obras” de Rauschenberg.
Rauschenberg, o próprio, acionou seus advogados, que processaram o cara. Não sei como fica o processo com a morte do artista.

Lixo, processo… não poderia ser mais apropriado, tudo a ver com as pesquisas artísticas do defunto.

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