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SABADOS – 09 DE JANEIRO DE 2010

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Eu poderia dizer que tento ser políticamente correto; que o Oliveira, canalha da redação, é quem me impede, constantemente sugerindo impropriedades quando escrevo alguma coisa. Mas seria mentira. Na verdade, não sei o que é ser politicamente correto.
Não acho que tentar questionar o sistema de cotas na Universidade seja sinal inequívoco de uma mentalidade doentiamente racista; nem que toda discriminção entre gêneros seja necessariamente machista ou sexista; por aí vai. Há, nesse debate, questões éticas sendo tratadas como princípios políticamente corretos, e, nessa mixórdia, questões políticas,onde não há correto e incorreto, e sim disputas de poder.
Nesta edição de Sabados, trazemos alguns blogueiros mal comportados, que podem ofender a uns e outros. Nem tudo que escrevem tem minha concordância (a maioria não tem, em alguns casos); mas (quase) todos têm em comum algo que me conquista. Humor. Como esta revista não pretende ser coerente, acrescento outros blogues que nada têm a ver com o assunto levantado nessas linhas aqui, da abertura. Sempre fui assim, meio retardado mesmo.
Livros
“… eu gosto mesmo é de livro, essa coisa anacrônica e superada de papel e tinta e papelão.
É talvez um problema de geração; faço parte da últimaque cresceu sem alternativas consistentes ao livro. Esses eram os objetos em que se adquiria conhecimento sólido, de verdade, uma coisa superior à informação efêmera e circunstancial de revistas, TV ou rádio; talvez essa veneração do livro se devesse em pequena parte ao fato de eu viver em um país de analfabetos, não sei.
O que eu sei é que mesmo algumas décadas antes, quando os grandes romances eram publicados primeiro como folhetins em jornais — por gente boa como Machado de Assis e Balzac -, era no livro que a obra alcançava sua realização plena. O objeto tem um simbolismo muito maior que o conhecimento que ele encerra.
A aquisição de informação não é o único prazer que um livro oferece. Há um completamente diferente e independente: o prazer de tocar, de sentir e de ter.”
Esse aí, todo se explicando, é o Rafael Galvão. Ele, como eu, tem uma tara, um pecado condenado pelos aspirantes a moderninhos: não trocaria um bom livro de papel por esses aparelhinhos de novo rico que andam vendendo caro a pessoas que logo terão de trocá-los por algum melhoramento tecnológico mais apropriado.
Não que eu me recuse a usar o Kindle e congêneres. Só não vi grande vantagem, ainda. À praticidade de ter um livro eletrônico em que possa fazer busca de palavras como num texto do word, eu prefiro o conforto de ter algo que pode cair no chão, molhar ligeiramente, levar pancada e joelhaço sem estragar irremediavelmente. (É, antes de arrumar a estante, sempre testo meus livros dando joelhaços neles. Mania antiga, a razão não sei).
O Rafael entra na classe dos que ofendem os auto-denominados políticamente corretos por seu humor sem noção, que alcança a perfeição estilística em posts como os que comentam as palavras de busca usadas por internautas que acabaram desabando no blogue dele. Por exemplo, esse AQUI.
Já a discussão sobre o Kindle está AQUI. E AQUI.
Economia
“A irresponsabilidade involuntária dos razoavelmente decentes é de longe mais custosa do que a contida canalhice de uns poucos corruptos”
Tinha de ser de um banqueiro, essa preciosa lição de política econômica. Achei em um texto no blogue do Nouriel Roubini, que o Hermenauta faz o favor de guardar para mim (o atalho para o blogue, não o texto). É o artigo de um dos clientes do economista incensado por ter previsto a crise. É dos muitos que mostram serem apressados os cantos de vitória dos inimigos do neoliberalismo _ porque a fé no livre mercado não morreu, sai pra esquerda, Satanás!.
Basicamente, o banqueiro argumenta que a crise ocorreu só porque os agentes do mercado, em geral pessoas inteligentes, perspicazes e bem informadas, perderam a noção do que é risco, mais ou menos como o sapo perde a noção de que está sendo cozido, quando posto numa panela com água no fogo.
Em resumo, não se pode criticar os especuladores bem remunerados que quase levaram o mundo ao colapso e roubaram a qualidade de vida de milhões de pessoas em todo mundo ocidental. Foi a sociedade que os fez agir assim.
São cada vez mais deliciosas as análises sobre os reais motivos da crise, feitas por quem se beneficiava da folia financeira que a provocou. O texto todo só para os bem educados que sabem ler inglês, AQUI.
Humor
Politicamente incorreta é aquela coisa que você pensa mas não fala porque pode acabar atrapalhando sua carreira. Ou você fala, mas não deveria, porque não vai ganhar nada com isso, pelo contrário, de repente alguém que poderia ser seu amigo vira inimigo. Como se eu dissesse, por exemplo, que, quando vejo o Marcelo Tas no CQC me dá a impressão de que parte do sucesso do programa se explica porque ele fala ao pesoal que o assistia no Castelo Ra-Ti-Bum. E fala do mesmo jeito que falava naquela época. Claro que eu jamais diria um absurdo desses, não sou politicamente incorreto para mexer com dogmas religiosos, com objetos de adoração.
Já o Marco Aurélio não só mexe como fez quase um livro só reescrevendo a Bíblia, numa das exegeses mais profundas (e com mais palavrões) que já vi nessa terra de pecados e infortúnios. Agora ele diz que está perto do sonho dele, já trabalha com o CQC, mas queria mesmo era ir para outro programa.
Enquanto isso, ataca em todas as frentes, com o careca atrás.

Seção Trash
O Ota estudou na UFRJ, na ECO, não o conheci mas vi quadrinhos dele sobre o Fernando Fernandes, meu primeiro chefe, diretor da Cooperativa dos Vegetarianos da Guanabara onde fiz meu primeiro estágio profissional, escrevendo, revisando, diagramando e imprimindo (em Xerox) o indômito boletim O Vegetariano, antes de sair para comer feijão com paio, no conjugado de minha avó, em Copacabana.
Ota, depois, editou a MAD brasileira; não sei onde anda, mas sei que produzi um portal politicamente incorretíssimo, trash, absurdo mesmo. Onde bota coisas indizíveis, outras intoleráveis e algumas espetacularmente inimitáveis.
Como a seção de noticiários, em que trata até de um recente caso, o mais baixo na escala das gafes jornalísticas. Escândalo que o autor da rata gostaria de ver varrido para fora da Internet, se não tivesse brigado com os responsáveis pela varrição. Claro, estou falando do Bóris Casoy, um jornalista sempre atormentado pelos tropeços passados, que aparece nesse video do Ota, AQUI (cuidado ao abrir no trabalho: tem som).
Política
“Queria derrubar a ditadura fazendo filmes. Em 1969, um companheiro de Cineclubismo seqüestrou um avião para Cuba. Não tive nada a ver com isso. Desconhecia as intenções e a organização do seqüestro. Meu crime foi ser amigo – sim, meu crime foi o de ser amigo de um seqüestrador. Quase fui preso e morreria na tortura sem falar, não por ato de bravura, mas por absoluto desconhecimento de causa. Não pertencia a nenhuma organização revolucionária. Não sabia nada sobre o seqüestro.
Escapei dessa situação pela coragem pessoal de minha mãe que driblou os imbecis fardados que foram me prender e consegui fugir de casa nas barbas da turma do Ministério da Aeronáutica que, naquele momento, ao invés de dedicar-se a cumprir sua missão constitucional de proteger nossas fronteiras, prendiam, torturavam e matavam estudantes.

Em Janeiro de 1971,do Chile, mandei uma carta para minha mãe, trazida por uma portadora, senhora de boa cepa, que fora visitar o filho no exílio em um gesto humanitário se ofereceu, ingenuamente, para trazer correspondência para os familiares dos exilados. O gesto lhe custou prisão e “maus tratos” nas dependências da aeronáutica. Na carta pedia a minha mãe que me enviasse livros e minha máquina de escrever. A carta foi entregue em Copacabana por militares do Doi-Codi que arrombaram minha casa, arrombaram móveis a procura de metralhadora (Assim entenderam “máquina de escrever”).
Minha mãe foi levada para o quartel da PE na Barão de Mesquita, onde foi humilhada e um dos “patriotas”que a conduziu assumiu de forma permanente a guarda do relógio que entrou com ela na PE e não voltou para casa. Amigos ocultos numa rede de gente decente ajudaram a tirar minha mãe daquela filial verde oliva do inferno.”

Esse é o Sylvio Tendler, falando sobre a Comissão da Verdade que botou o Nélson Jobim e oficiais generais contra o Palácio do Planalto, transcrito no blogue de um dos jornalistas mais políticamente incorretos que já conheci, o Leandro Fortes. Tão incorreto que é de esquerda, vê se pode.
Saúde
“Se precisei de alguma reflexão para descrer em Deus, no chamado ponto G nunca tive muita fé. Se a idéia de Deus nasceu bem antes de mim, a idéia do ponto G surge bem depois.

Mutatis mutandis, é o que penso da “existência” de Deus. Com uma diferença: a suposta existência de Deus é muito útil para quem pretende exercer poder sobre seus semelhantes. O ponto G só serve para diminuir mulheres que nele acreditam mas não conseguem achá-lo.”

A primeira vez em que ouvi falar de Janer Cristaldo foi no blogue do indefectível Hermenauta, e me ficou a impressão de um desses malucos da dreita nacional, mas proscrito das fileias conservadoras por discordar da carolice reinante. Nunca li, e concluí que estava perdendo, quando, procurando na blogosfera alguma coisa sobre a mais acachapante descoberta científica da década, me deparei com o mais acachapante texto humorístico sobre o fim do ponto G.
(Suspeito que a intenção não era fazer humor, mas a associação entre ateísmo e descrença no ponto G é de fazer ajoelhar os incréus. Santo ponto sem nó, Batman, como eu não havia pensado nisso?)
Da minha parte, afirmo que o ponto G existe sim, morreu para vocês, seus ingratos. Não só existe como fica entre os pontos F e H, cujas propriedades tântricas a ciência ainda haverá de reconhecer. Se você ainda não achou nenhum desses, é uma questão de não perder a calma, respirar fundo e continuar procurando. Com carinho. E sabendo vivenciar a busca, como diria o Paulo Coelho.
Ah, o Cristaldo? O resto do texto está AQUI. Mas eu não me responsabilizo.

5 Comentários on “SABADOS – 09 DE JANEIRO DE 2010”

  1. #1 daSilvaEdison
    on Jan 11th, 2010 at 13:03

    Que produção generosa, não seu SLeo?
    E imaginanar que há poucos dias o Sítio era digno de despertar a cobiça do Stédile.

  2. #2 aiaiai
    on Jan 11th, 2010 at 14:57

    Parabéns! o sabados desse domingo tá ótimo!

  3. #3 aiaiai
    on Jan 11th, 2010 at 15:04

    Parabéns! o sabados desse domingo tá ótimo!

  4. #4 sergio leo
    on Jan 11th, 2010 at 16:04

    Obrigado, aiaiai, DaSilva. Sabado que vem tem mais. Ou domingo, vamos evr.

  5. #5 Pablo Vilarnovo
    on Jan 27th, 2010 at 14:24

    Acho difícil o economista ter chegado a conclusão que foi a sociedade que os fez assim. A análise dele está certa. O difícil, para alguns, e entender que esse mesmo Estado que hoje se apresenta como a solução foi um dos (veja bem UM DOS) que causou a crise simplesmente distorcendo justamente essa análise de risco. Como? Hora, primeiramente o governo americano desde sempre afirmou que resgataria a Fredie Mac e a Fannie Mae caso essas tivessem um problema. Os seja, seus executivos sabiam que caso acontecesse algo seriam resgatados pelo governo. E o que aconteceu? Exatamente aquilo que o governo falou que iria acontecer. Gastou-se bilhões para resgatar essas empresas. E não só essas como outras.
    A infinita maioria dos liberais foram, vejam só, contra o bailout. Eram a favor que as empresas quebrassem e fossem substituidas por outras. Ia custa? Ia. Não mais do que já foi gasto para salvar os bônus dos executivos. Foram contra o governo gastar bilhões para salvar essas empresas. E no final das contas ficamos com o risco de uma nova bolha que está para estourar daqui a pouco tempo.
    Mais uma vez o liberalismo toma pela venta algo a que não lhe diz respeito.
    E quem foi favorável? A galera da esquerda pelo motivo que usaram a crise para aumentar a centralização e o controle da economia pelo governo e, logicamente os empresários que foram salvos pelo tesouro com aquela conversa de “too big to fall”.
    Veja quem está contra o bailout e veja quem está a favor. Apenas isso já dá uma mostra de como as coisas realmente aconteceram.