Na primeira vez, foi no simpático Toujour, em Brasília, os garçons até estavam constrangidos, mas não tinham como reprimir a garotada que eu não via, mas ouvia. No mezanino, um grupo de rapazes e moças conversava aos berros, perturbava a noite. “É essa turma mal criada, filhos de autoridades sem limites”, pensei, injusto com a juventude brasiliense da qual meus educados filhos fazem parte.
Na segunda vez foi lá em casa mesmo; filhos e amigos, conversando em tom de acordar defunto. “Somos nós os culpados, essa coisa de estimular a criatividade, soltar o verbo; essa turma acaba se expandindo demais, não controle nem o tom de voz”, teorizei.
Mas na terceira, caiu a ficha. Nesta sexta, em São Paulo, a moçada de Brasília estava longe e sem culpa. E na mesa ao lado, no Martin Fierro, Vila Madalena, um professor de física, novinho, barba loura, papo chato, falava do doutorado, da carreira, dos alunos. Aos berros. Gritava com o interlocutor e ninguém na mesa parecia incomodado com a gritaria, de ensurdecer vendedor de feira.
É o Ipod, concluí.
Quando via entrar no elevador uma mocinha com fones de ouvido e um barulho ritmado saindo da caixa craniana, pensava comigo: “essa não vai chegar ouvindo à idade adulta”. Pois é, essas crianças cresceram, com dúzias de decibéis martelando o pavilhão auditivo, e hoje frequentam os mesmos restaurantes que nós. Não conseguem ouvir a si próprias. Gritam entre si, esgoelam-se em palavras de amor ao ouvido uns das outras e vice-versa, bradam detalhes de suas vidas para os companheiros de mesa e de bairro.
Shakespeare hoje escreveria que não resta mais silêncio. O século XXI será dos surdos. Sentirão a terra tremer, mas nem ouvirão os terremotos.



on May 5th, 2010 at 16:26
E por falar em futuro…
Big Brother sai às ruas
Os automóveis começarão a receber chips de computador no ano que vem. Até 2014 toda a frota do país possuirá a traquitana. A tecnologia necessária foi desenvolvida em segredo, com vistas grossas da imprensa corporativa, e está pronta. As leis já passaram.
O Poder Púbico é o maior beneficiário do dispositivo. Apanhará motoristas que não realizam inspeções, violam rodízios municipais ou deixam de pagar IPVA, multas, licenciamento. Quando administradores de índoles despóticas inventarem novas formas de lesar o contribuinte (pedágios urbanos, por exemplo), bastará aproveitar as torres de transmissão existentes.
Também as seguradoras lucrarão horrores com a possibilidade de rastrear automóveis roubados e furtados. Ou alguém acredita que o preço do seguro cairá?
Há dois problemas fundamentais nessa história. O primeiro, insanável, possui caráter doutrinário. Quanto maior a interferência do Estado sobre a individualidade, maiores o cerceamento de direitos e a violação da privacidade. O espaço público não é uma prisão de segurança máxima.
Outra conseqüência do monitoramento é incentivar uma série de novas atividades criminosas. Haverá a gangue do chip adulterado, seguradoras pagarão caixinhas para funcionários privilegiarem seus clientes (carros sem seguro serão ignorados por todos), adúlteros sofrerão chantagens, empregados serão espionados.
Pode o cidadão ser obrigado a pagar, mesmo que indiretamente, por um equipamento que não quer transportar consigo? Como reagiremos quando um governo futuro quiser implantar chips sob a pele de todos os recém-nascidos, “para sua própria segurança?”
on May 5th, 2010 at 22:38
Isso para não falr dos que abrem mão da própria privacidade, nos orkus e googles da vida…
on May 9th, 2010 at 17:35
Eu acho que é falta de educação mesmo. Aqui no Rio, por exemplo, acho que é até mais que em São Paulo. As pessoas só falam alto, em qualquer lugar, sem contar quando gritam mesmo. Sem nenhum motivo, grosseria pura.
on Jun 12th, 2010 at 22:45
Eu amo a delicadeza do silêncio ou de conversas em voz baixa entre amigos, um copo de vinho, um café. Está cada vez mais difícil. Às vezes, caminhando na praia, vislumbro um outro ser humano sentado quieto, observando a paisagem, no meio da cacofonia de carros, vendedores de artigos diversos, a turma do vôlei, a turma da ginástica com megafones… Aí vem aquela vontade de sentar ao lado e partilhar o silêncio. Às vezes, nem é preciso. Passamos um pelo outro e o olhar é cúmplice. Por isso, embora tão apaixonada pela humanidade ainda, sou cada vez mais amante da palavra escrita. Ela até pode espantar os olhos, mas jamais agride o ouvido.