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Filósofos, direitas e dilemas – Nietzche e Heidegger

Nietzsche defendia uma sociedade homogênea, sem a bagunça ideológica do mundo liberal; mas essa homogeneidade seria alcançada por consenso, como na velha polis grega (esqueçamos os escravos, para não atrapalhar o raciocínio). Seus Übbermensh, super-homens, no topo da pirãmide social, estariam mais para líderes espirituais, num modelo Dalai Lama ou Aiatolá Khamenei, do que para o ditador Adolf Hitler. Quem diz isso tudo é Julian Young. mais novo biógrafo do Fritz (assim chamavam o Friederich, na padaria lá da terra dele). Muito ocupado, dei uma de Paulo Francis e, em vez de ler o livro, soube dele pela resenha de outro Francis, o “Fim da História” Fukuyama, no NY Times, num belo texto.
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É leitura imperdível. Eu pretendia até fazer uns paralelos com o que andamos vendo nos debates acadêmicos, nas disputas políticas, nos impasses da esquerda, nos botecos e até na biografia do Bussunda _ em que o Guilhemre Fiuza, parece, glamuriza, encantado, a porralouquice de classe média do famoso humorista. Mas deu preguiça. Melhor ler o Fukuyama, de quem conto logo o fim:
“…o pós-modernismo, com seu acolhimento da diversidade de valores, não é diferente do modernismo do século 19 que Nietzsche odiava. Ele não teria comemorado estilos de vida alternativos, as culturas não-ocidentais ou o direito de cada aluno no fim do primário de criar sua própria escala de valores. A confirmação da morte de Deus é uma bomba que explode muitas coisas, não só o tradicionalismo opressor, mas também valores como a compaixão e a igualdade da dignidade humana sobre os quais uma ordem política liberal tolerante se baseia. Pois esse é o beco sem saída nietzschiano do qual a filosofia ocidental ainda não emergiu.”


No mesmo New York Times, mais coisa interessante e na mesma região espiritual para alimentar férias filosoficas, um texto sobre a relação entre Heidegger e o nazismo. Se aceitamos que Heidegger mergulhou de cabeça no establishment hitlerista, denunciando judeus, edulcorando o nacional-socialismo, dá para absorver a filosofia dele sem se envenenar? (questão importante para quem, como eu, anda levando para lá e para cá um texto do cara sobre a Obra de Arte, que ainda acabo lendo).
Essa história da Hannah Arendt ter defendido o sujeito é só mais uma prova de que as mulheres, quando se apaixonam, perdoam qualquer canalhice, mesmo depois de findo o namoro, insinua o texto. Esse eu não vou traduzir não, porque há que se respeitar um pouco a modorra de férias. Mas leiam lá, botem no tradutor do google, se a língua atrapalha.
Decididamente, a idade me puxa com suas garras longas para o conservadorismo. Quem diria que um dia eu concordaria com o Fukuyama. Logo ele.
AQUI, uma tradução livre (livre de exigências de qualidade) do texto sobre o Nietzsche:
Uma das armadilhas ao se escrever uma biografia de um grande filósofo é a tentação de reduzir idéias importantes a psicologia simples, à conseqüência de alguma casualidade no desenvolvimento pessoal do filósofo. Julian Young, professor da Universidade de Auckland e Wake Forest University, evitou, em grande parte, essa armadilha, escrevendo uma “biografia” filosófica de Friedrich Nietzsche (1844-1900) em que a história da vida fornece contexto, mas não a explicação final para as idéias. Ele fornece, assim, uma introdução séria e legível, ainda que não inovadora, à “filosofia com um martelo”, de Nietzche.
Contexto é particularmente importante no caso de Nietzsche, dada a sua história de vida tremendamente dramática . O jovem Friedrich (ou Fritz, como era conhecido) foi, sem sombra de dúvida, o aluno mais brilhante de qualquer de seus formidáveis professores jamais encontraram, desde seus dias na escola primária de Pforta. Seu professor de filologia clássica em Leipzig, Friedrich Ritschl, disse que em seus 39 anos de ensino “nunca havia conhecido um rapaz que tivesse amadurecido tão cedo.” Nietzsche recebeu seu doutorado aos 24 anos de idade e tornou-se professor da Universidade de Basel no mesmo ano; e foi promovido a professor titular aos 25.
Com uma idade muito precoce, no entanto, Nietzsche foi afetado por uma série de doenças, incluindo dores de cabeça cegantes que duravam dias, problemas com a digestão que o deixavam acamado e com vômitos, e uma cegueira progressiva, que lhe permitia ler, dolorosamente, por apenas um par de horas por dia. Tão debilitantes eram esses sintomas que ele foi forçado a desistir da cátedra aos 34 anos. Retirou-se para uma vida solitária e nômade, viajando entre a Suíça e sul da França em busca de um clima quealiviasse seu sofrimento, marginalmente. Suas grandes obras foram escritas nos dias de lucidez que lhe permitiam as longas crises de deficiência física. “Genealogia da Moral” foi composta, na maior parte, em apenas três semanas em 1887.
Um dos conceitos centrais da filosofia de Nietzsche foi o “eterno retorno do mesmo”, isto é, a necessidade de afirmar o valor da vida, em cada detalhe, como algo a ser repetido indefinidamente através do tempo. Dada a enorme tortura de sua existência física, essa afirmação foi o testemunho da gigantesca vontade do próprio Nietzsche – que seria transformada em loucura, após uma queda em uma calçada de Turim, em janeiro de 1889 com ilusões que havia se tornado um Deus criador de mundos.
Young recorre a explicações puramente psicológicas principalmente na questão da atitude de Nietzsche em relação às mulheres. Ele observa que Nietzsche tinha um grande círculo de amigas muito inteligentes e decididas, e que muitas poderiam ser consideradas como pioneiras feministas. Como professor de Basileia, Nietzsche adotou uma posição minoritária em favor da admissão das mulheres no programa de doutorado. Mas, depois de seu namoro desastroso de Lou Salomé, roubada pelo amigo dele Paul Rée, o filósofo chegou a considerar o feminismo como um dos subprodutos mais desastrosos da modernidade, e as mulheres como necessitadas de (nas palavras de um personagem em “Zaratustra” ) “chicote”.
A questão mais séria levantada neste ou em qualquer outro estudo de Nietzsche diz respeito à natureza de seu programa político-cultural, a transvaloração “de todos os valores”, que devia ter lugar após a morte do cristianismo. Young corretamente critica tentativas dos nazistas de se apropriar de Nietzsche como um dos “seus”. Ele ressalta que, apesar de um casual anti-semitismo nos textos de seus primeiros anos, Nietzsche, mais velho, tornou-se um convicto anti-anti-semita, adversário de Bismarck e um crítico do nacionalismo alemão surgido depois da unificação do Reich, em 1871.
Nietzsche, no entanto, sonhava com uma futura sociedade hierárquica, em que o trabalho de muitos apoiaria a grandeza dos poucos, em que a cacofonia cultural de sociedades liberais contemporâneas seria substituída pela solidariedade de uma cultura única e comum. Young afirma que este não era realmente um projeto político, e que os Übermensch no topo da pirâmide deveriam ser considerados menos ditadores como Hitler, e mais como líderes espirituais, que ele compara diversas vezes ao Dalai Lama ou ao aiatolá iraniano Khamenei. Homogeneização cultural não era, para o jovem Nietzsche, algo a ser imposto pelo poder político, mas sim algo gerado espontaneamente por meio da participação comunitária na arte, tanto quanto a antiga polis grega havia se unido pela representação comum da tragédia.
Isso explica então o papel central que a música tem em sua filosofia. Nietzsche, talentoso pianista e compositor, tinha grandes esperanças de que a música de Richard Wagner pudesse, de alguma forma, servir de base para uma refundação da cultura alemã, assentada em uma arte unificadora, e por isso ele ingressou ansiosamente no grupo de Wagner e de sua esposa, Cosima. Ele rompeu com o compositor não por ter deixado de acreditar no projeto, mas porque ele sentiu que Wagner seria um indivíduo muito despreparado para implementá-lo.
Mas a compreensão do projeto de Nietzsche, como cultural, em vez de um político não nos deve cegar para suas implicações terríveis. Embora, seja possível criar uma comunidade em pequena escala baseada no compromisso comum e voluntário com a arte, como Wagner procurou fazer em Bayreuth; a extensão desse projeto para a sociedade como um todo, com toda a sua diversidade de fato, exigiria poder político ditatorial. As origens místicas da comunidade dionisíaca de Nietzsche são um convite aberto para o desencadeamento da paixão irracional que malbarataria alegremente a vida de qualquer indivíduo que se pusesse em seu caminho. Aiatolá Khamenei é certamente um modelo muito melhor de futuro líder de Nietzsche do que o impotente Dalai Lama.
A biografia de Young ilustra os conceitos dos livros de Nietzsche com exemplos extraídos do mundo contemporâneo. Assim encontramos Diana, Princesa de Gales, “O Show de Truman” e a guerra do Iraque, surgindo em locais incongruentes. Alguns desses exemplos são úteis, mas muitos simplesmente tiram seriedade do livro, como a dúzia de referências sobre aquecimento global espalhadas pelo texto.
Quer reconheçamos ou não, continuamos a viver à sombra intelectual de Nietzsche. O pós-modernismo, o desconstrutivismo, o relativismo cultural, o “espírito livre”, desprezando a moral burguesa, mesmo festivais New Age, como o festival Burning Man, em última instância podem ser rastreados até ele. Há uma linha traçada desde “Para Além do Bem e do Mal” até a afirmação de juiz Anthony Kennedy (em Planned Parenthood v. Casey) de que a liberdade é “o direito de definir o próprio conceito de existência, do significado, do universo e do mistério a vida humana. ”
Young adequadamente sublinha a noção de que o pós-modernismo, com seu acolhimento da diversidade de valores, não é diferente do modernismo do século 19 que Nietzsche odiava. Ele não teria comemorado estilos de vida alternativos, as culturas não-ocidentais ou o direito de cada aluno no fim do primário de criar sua própria escala de valores. A confirmação da morte de Deus é uma bomba que detona muitas coisas, não só o tradicionalismo opressor, mas também valores como a compaixão e a igualdade da dignidade humana sobre os quais uma ordem política liberal tolerante se baseia. Pois esse é o beco sem saída nietzschiano do qual a filosofia ocidental ainda não emergiu.
(ah, a figurinha eloquente do post eu roubei desse texto depirambado, AQUI).

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