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A seleção de Dunga e o blogueiro expulso de campo

Como naqueles filmes de ficção científica da Guerra Fria, em que o perigo comunista era mascarado sob a fantasia da invasão alienígena e as pessoas ao redor dos heróis iam, pouco a pouco, transformando-se elas próprias em aliens, sinto à minha volta uma mudança ameaçadora da normalidade. As pessoas que pertenciam à minha espécie e ao meu círculo de amizades transformam-se gradativamente em algo oposto à minha natureza, e me olham como se viessem de outra civilização _ ou como se EU pertencesse a outro Universo.
O nome disso é Copa do Mundo. E minha sensibilidade se deve ao fato de que detesto futebol.
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Video encontrado AQUI.


Já reagi agressivamente a essa súbita exclusão do convívio natural com meus iguais. Na idade em que temos ideais de mudar mundo, além de ingressar na periferia do movimento estudantil, cheguei a exibir meu inconformismo vestindo uma camisa da Itália para acompanhar uma final de Copa, com o Brasil, na casa de um colega da faculdade. Para minha surpresa _ e de toda a nação canarinho _ o Brasil perdeu, e eu saí constrangido às ruas de Copacabana com a camisa da squadra azurra, cercado de amigos inconsoláveis que, provavelmente, desencorajaram qualquer agressão de algum torcedor mais revoltado.
Naquele mesmo dia, soube mais tarde, um sujeito da minha escola estava trancado na despensa de casa chorando sobre o saco de farinha, com uivos de primadona; os pais do outro lado, batiam à porta, preocupados ( não sei se com ele ou com o saco de farinha; umidade e despensa são inimigos mortais). Era, suponho, o comportamento normal naquele momento. Não fui capaz. Falhei com minha gente.
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Já tentei ingressar nesse mundo. Fui perna de pau quando criança, os óculos de alto míope não ajudavam muito no desempenho esportivo (para não falar das tentativas de cabecear a bola). Mais tarde, usando lentes de contato, sem o treino da infância, até insisti, adotei com algum sucesso a técnica da vaca brava _ abaixava a cabeça e ia com a bola até onde podia, derrubando quem estivesse à frente, até que algum mais habilidoso me sacasse a pelota ou me jogasse no chão com um golpe na canela.
Mas preferia vôlei. E até hoje não entendo as piadinhas homofóbicas sobre isso. Olhando as comemorações após os gols, não sei por que o volei seria menos másculo que o futebol. No volei amador, o abraço coletivo envolve, inclusive, sexos diferentes.
comemoragol5.jpg
Hoje, deixei de lado a revolta arrogante, e me pergunto, com a humldade de um exilado leninista na Sibéria: que fazer? Como enfrentar a euforia coletiva envolvida com uma seleção nacional composta por jogadores de times italianos, ingleses, espanhois? Como conversar em rodinhas onde a questão é se o Dunga deveria ter posto ou não o Imperador para fora? Como aguentar as opiniões de uma centena de milhões de auto-intitulados técnicos de futebol?
Antes, as mulheres assumiam posição na retranca, mais discreta. Alguém como eu podia encontrar no plantel feminino, longe da TV, uma companhia compreensiva para a falta de traquejo futebolístico. Hoje são elas as maiores entusiastas, vai ver conhecem até as regras de impedimento.
É uma deficiência, um aleijão social, essa inapetência por futebol. E, pior, até os defensores da minorias desprezam seus portadores. Sou olhado com um desprezo maior que o da Miriam Leitão por quem não confia nos fundamentalistas do Banco Central. Minha falta de entusiasmo com os jogos certamente será vista como uma traição à pátria _ e felizmente não sou candidato a nada; já perderia votos de saída, antes mesmo de começar a campanha de fato.
Se eu esbarrar com o Luis Fernando Veríssimo, não vou ter papo porque, se por milagre ele abrir a boca, não falará de outra coisa. Se eu pegar um taxi, o motorista pensará que sou argentino, tamanho será meu mutismo quando ele começar a comentar o desempenho dos jogadores.
Exilado em minha própria terra. E o pior é que, em seguida vem a campanha eleitoral, e, pelo rugir das arquibancadas, o comportamento dos eleitores e comentaristas promete o fanatismo das torcidas organizadas.

8 Comentários on “A seleção de Dunga e o blogueiro expulso de campo”

  1. #1 Luiz
    on May 13th, 2010 at 11:42

    Sergio,
    Ao contrário de você, sou fã inveterado de futebol.
    Mas essa seleção do Dunga me fez declarar “férias” da condição de torcedor da nossa seleção. Ficarei neutro (até quando isso for possível…).
    Por que? Ganhar com essa seleção de robôs, ou perder, fará pouca diferença…

  2. #2 aiaiai
    on May 14th, 2010 at 14:50

    Putz…to rindo de chorar kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk buaaaaaaaa.
    Delícia de texto, sérgio!

  3. #3 sleo
    on May 14th, 2010 at 16:01

    Hehe. Pra você ver, Luiz, não consigo nem imaginar porque são robos esses selecionados aí. Soube só que o Dunga deu uma ducha de água fria num dos jogadores mais promissores, parece que foi a única maneira que encontrou para afogar o Ganso (caramba, como custei a encontrar uma maneira de fazer esse trocadilho infame).
    Aiaiai, você é uma gracinha. Chora não.
    Estou em Comillar,que em espanhol significa aspas, mas também é nome de uma cidade na região da Cantábria. Congresso daquela fundação do garcia marquez, de Nuevo periodismo, depois conto. Jornbalistas interessantíssimos, que cobrem Cuba, Venezuela, mas sem a desinformação e a miopia que vejo nos “comentaristas” (con comillas, por favor) daí. E não pensem que por estarem num troço da fundação do Garcia marquez é gente do Fidel ou do Chávez. Visão crítica, mas bem informada sem militância. Já escrevo sobre isso, em breve.

  4. #4 Luiz
    on May 15th, 2010 at 08:52

    Sergio,
    Digamos que Gilberto Silva, Felipe Melo, Josué, Kleberson, Julio Baptista e Grafite não fariam feio atuando como membros das tropas imperiais em qualquer Star Wars…

  5. #5 Georg Tuppy
    on May 15th, 2010 at 12:40

    Sérgio, vc não esta só na pátria de chuteiras. Tb não entendo nada e me sinto um ET em conversas. Abçs Georg

  6. #6 Ivan
    on May 16th, 2010 at 16:40

    Hahahahah tive um ataque de riso aqui com o parágrafo do volei.

  7. #7 Eneraldo Carneiro
    on May 18th, 2010 at 09:53

    Pô Leo, deixa de embromar e fala logo do Acordo Brasil-Turqui-Irã!

  8. #8 Ateísta Netto
    on Jun 12th, 2010 at 19:01

    “É uma deficiência, um aleijão social, essa inapetência por futebol.’
    É pior Sérgio, é uma Exclusão digna dos Anos Ditadoriais de Chumbo onde se afirmava: “Brasil: Ame-o ou Deixe-o”.
    Quando ganham Destroem os Lugares com sua “alegria e revenrenciamento”, Quando Perdem Destroem os Lugares com sua “tristeza e frustração”.
    Não Passam de Baderneiros que só nos envergonham Mundo afora, sendo os “melhores no futêbool” e os últimos em Saúde, Educação e Qualidade de Vida para maioria da População.
    Para tal não há PAC que resolva porque está EmPACado desde a nossa colonização.