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Fábulas de ratos e elefantes

(Abaixo, minha coluna da semana no Valor, onde, acho, tornei-me o primeiro jornalista na História a usar a palavra proboscídeo num jornal)
Entre as metáforas exóticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a política externa, talvez nenhuma tenha consistência tão duvidosa quanto a usada na semana passada, quando comparou os Estados Unidos a um elefante “que se borra” ao ver um rato. Falava sobre as ações brasileiras na Organização Mundial do Comércio, para o público interno, sem se importar com as sensibilidades no país que, em seguida, classificou como “parceiro privilegiado”. Com metáforas menos paquidérmicas, Lula já causou espanto maior, como quando classificou protestos da oposição no Irã como choro de perdedor ou deu outras declarações ligeiras sobre o regime de Teerã.
Nem para o eleitorado essas metáforas ajudam a compreender os objetivos bem mais complexos da diplomacia, não raramente mais defensáveis do que as alegres comparações do chefe de Estado brasileiro. O elefante com disenteria levado ao palanque pelo presidente serve para alimentar a mitologia do suposto “antiamericanismo” do Itamaraty, e não ajuda a reduzir o mal estar político que existe – ainda que minimizado pelos dois lados – entre as administrações Lula e Obama.
Mas erra quem espera ouvir de alguma autoridade dos EUA protestos veementes contra a loquacidade presidencial. Nem se pense que o proboscídeo de comício criado por Lula será capaz de provocar alguma forte trombada entre as diplomacias brasileira e americana. Se consultado sobre o assunto, o embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, experiente diplomata, provavelmente se espantará mais com a ideia de se comparar o Brasil a um rato, já que não é assim que o país é visto por Washington, onde é grande o interesse em manter abertos os canais em Brasília.
(link da imagem, aqui )


A verdade é que Lula já é visto como um presidente que, mesmo conservando influência num futuro governo, está de saída. E quem passar a usar sua escrivaninha não terá o mesmo tipo de facilidade para traduzir políticas de governo em imagens simplistas, sabendo contar com a boa vontade dos interlocutores. Nenhum dos candidatos a presidente tem a história de Lula, nem goza da admiração internacional por ter chegado ao poder (e se dispor a sair) pelas vias democráticas, e ter administrado o país com uma mão na ortodoxia e outra nas políticas sociais. Mesmo por estilo, Dilma Roussef, José Serra ou Marina Silva serão obrigados a deixar de lado metáforas animais ao explicitar suas ideias em diplomacia.
Havia grande expectativa em Brasília em relação ao governo Barack Obama, especialmente após a Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, em abril de 2009, na qual Lula chegou a intermediar uma conversa entre o americano e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. A lua de mel acabou praticamente um ano depois, durante a Cúpula de Segurança Nuclear promovida por Obama em Washington. Uma conversa reservada entre os dois terminou mal, com Lula deixando a sala de reuniões irritadíssimo com o tom da conversa de Obama, que classificou de “arrogante”.
Obama também tinha motivo de queixas. Lula acabava de vazar a carta enviada por ele a Brasília sobre as negociações para deter o programa nuclear iraniano, e, em Washington, classificava-se de ingênuo o esforço brasileiro com o acordo sacramentado entre Brasil e Turquia com o Irã para evitar uso militar da capacidade atômica naquele país. Em resumo, Obama disse a Lula que até aceitava os pedidos brasileiros de maior paciência com Hugo Chávez na Venezuela, mas que Irã não era tema para o Brasil e está no núcleo dos interesses estratégicos dos EUA.
Com Dilma, Serra ou Marina, o tema Irã deve perder a ênfase na agenda bilateral, e, mesmo com Lula, Brasília deu demonstrações de que não levará a ferro e fogo a interferência na discussão sobre o programa nuclear iraniano. Daí o interesse dos EUA em evitar ampliar a dimensão dos desentendimentos políticos, para enfatizar o que, em Washington, é considerado mais importante no momento, os interesses econômicos e comerciais. Nesta semana, a quantidade de empresas americanas de olho nas oportunidades da exploração do pré-sal no Brasil, na feira Rio OIl & Gás 2010, dará uma ideia de que tipo de bicho os Estados Unidos preferem ser.
E há mais: a americana Ford pretende fazer do Brasil seu centro de produção e desenvolvimento da linha Fiesta, para exportação a outros países emergentes. A GM usará suas bases brasileiras para seu centro de engenharia dedicado a picapes e caminhões leves. A IBM, que havia anunciado a criação de um centro de pesquisas no Brasil, acaba de divulgar que criará, no país, seu “Centro de Soluções para Recursos Naturais”, o terceiro no mundo especializado em petróleo e gás. A General Eletric também escolheu o Brasil para um centro de pesquisas, como os quatro que mantém, nos EUA, Alemanha, Índia e China.
Esses exemplos são parte pequena da lista de companhias americanas dispostas a aproveitar o Brasil como mercado e plataforma de exportação. E explica porque as autoridades dos Estados Unidos estão decididas a evitar que elefantes imaginários atravessem o caminho trilhado com interesse pelas empresas daquele país.

(a propósito, já me fizeram prometer, no Valor, que proboscídeo, nunca mais)

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