Sou machista. E, como acontece com os prisioneiros do crack, a gente sabe que é errado, a sociedade condena. A gente luta sinceramente para largar, mas sempre aparece uma oportunidade atraente, a gente dá bobeira e, olha lá, já estamos no vício de novo. Claro, como em todo vício, sempre sobram desculpas, engenhos de auto-engano, garantias de que não é nada disso que todo mundo está vendo. “Machista, eu? Estava só dando uma palhinha, nem traguei!”
Comigo isso está acontecendo por causa da Dilma. Descobri que de nada adiante ser liberal com a filha, ser solidário com a mulher, dividir as tarefas de casa e ser chefiado, com gosto e sem estranheza, por uma multidão de profisionais do sexo feminino.
Fiquei com lágirmas nos olhos, juro, ao ver pela primeira vez no Planalto uma mulher, que nem tremeu a voz num discurso bacana, que, lançada do quase anonimato por um presidente popular, soube encontrar na própria história pessoal justificativas convincentes e comoventes para sua chegada ao poder. Convenceu e, com a dedicação quem mostrou desde a campanha, sou capaz de apostar que vai calar a boca de muito crítico, assim como o primeiro presidente operário do país foi capaz de fazer um governo includente e de popularidade recorde. Mas, como acontece nas melhores famílias, o poder lhe subiu a cabeça, e a mandatária resolveu provar a força de sua caneta presidencial, para impor o que considera _ e até é _ uma causa legítima.
É mais ou menos como Jânio Quadros cobrando dos brasileiros que usassem terno safári, mais apropriado ao clima tropical (na época os brasileiros eram quase todos homens, parece, ou então só os homens preocupavam o presidente, pelo menos, não sei que roupa ele defendia para as mulheres no trabalho, digo; na praia sabe-se que ele queria proibir o biquini, talvez por trauma com algum umbigo). Me lembrou também o ministro da Saúde José Serra, quando chegou a tentar, antes que algum assessor lhe escondesse a caneta, tornar fora-da-lei a venda do cardiopático requeijão cremoso, que tantas artérias já entupiu de brasileiros e brasileiras. A causa de Dilma é menos anedótica e mais evidente, ela apenas quer que os documentos oficiais, os barnabés e a história a chamem de presidenta. Com A.
A primeira reação de quem está acostumado a falar presidente e mal aprendeu ainda as novas regras para o hífen e os acentos, foi de resistência obstinada. Presidenta uma ova, disseram os partisans. Afinal, se hoje nos obrigam a só dizer presidenta, amanhã teremos de falar “serventa”, “gerenta”, “tenenta”. Se duvidar, nem as gestantes escaparão da patrulha vocálica. É, sou machista, do gênero irrecuperável, porque esotu estou nesse time.
Para ser honesto, devo reconhecer que esse argumento contra as gentas, o Possenti desmoralizou nesse belo artigo AQUI. Estragou minha brincadeira de comparar presidenta com contenta e atendenta:
“
Há quem pense que, se dizemos presidenta, deveríamos flexionar segundo os mesmos critérios todas as palavras que terminam em -nte. Ou seja, deveríamos dizer também contenta, exigenta etc. Que as formas são gramaticalmente possíveis – e seriam regulares – fica provado pelo fato de que são sempre as mesmas e resultam de flexões regulares. Mas o léxico das línguas é bastante irregular: muitas formas – e flexões – possíveis nunca ocorrem. Os casos mais claros são certas derivações: por que dizemos jogo e não *jogamento nem *jogação? Por que dizemos julgamento e não *julgação? por que dizemos ameaça e não *ameaçamento ou *ameaçação? Por que dizemos filiação e não *filiamento? Em vez de esposa, poderíamos dizer marida, se as gramáticas funcionassem no vácuo. Acontece que funcionam em sociedades vivas, que interferem nelas. ”
(Meu amigo, ex-embaixador do Chile no Brasil Álvaro Dias, lembrava que em espanhol se diz de fato “presidenta”. É, mas também dizem “contenta” e nós não, e disso o gabinete presidencial não tratou, talvez por achar suficienta, digo, suficiente).
“Ah, mas ela pediu, e a palavra está no dicionário”, diz _ até por carinho _ a turma disposta a falar como a “presidenta” gosta. Primeiro, não interessa ao cidadão o que o presidente gosta ou desgosta, isso é adereço para ele ou ela usar em casa. Segundo, não é para agradar chefe que vou chamar cinzento de plúmbeo só porque as duas palavras convivem no Aurélio. Claro, se a Dilma me concede uma entrevista, no ambiente fechado do gabinete, por gentileza, vou tratá-la até de Sua Santidade, se isso a faz feliz. Mas não me peça para escrever isso para minhas leitoras.
Há quem veja na resistência aos desígnios vocabulares da presidente uma tentativa reacionária de rejeitar a ascensão da mulher ao governo. Seria uma tentativa freudiana, uma espécie de complexo de Nero ou patologia pior.
E, como são os jornais os que mais escrevem sobre a senhora mandatária da nação (que, por coerência, deveria passar a se chamar naciona), já saiu a campo a tese estapafúrdia de que tudo não passa de uma conspiração golpista da midia. O Marcos Bagno, figura conhecida cá no Sítio, chegou a produzir uma peça da mais generosa paranoia partidária. Material de estudo mesmo.
Essa importante peça literária de denúncia pode ser lida na íntegra AQUI. A leitura é fundamental para conscientizar os povos e as povas contra os jornalistas, eu e meu machismo inclusive, empenhados em impedir que se chame a presidente de presidenta porque isso estragaria nossos planos de domínio sobre as forças populares em ebulição.
Agente, aquele ou aquela que age. Gerente, quem gerencia. Presidente, quem preside, seja, homem, muher ou hermafrodita.
Aliás, é pela ação e pela gerência que a presidente vai mostrar como, de fato, uma mulher faz a diferença. Não é com batalhas linguísticas em torno de títulos hierárquicos, nem, como soube anteontem, com chefe dando bronca em burocrata porque o coitado, embora tenha dado entrevista falando disciplinadamente “presidenta”, teve suas declarações publicadas com a palavra “presidente”, assim, do jeito tradicional, como manda o impopular manual da redação.




on Jan 11th, 2011 at 23:38
Bem observado, caro Sergio.
on Jan 12th, 2011 at 00:09
[...] This post was mentioned on Twitter by Marcelo Soares and charlesnisz. charlesnisz said: O @sergioleo cismou com o "presidenta". Mas até sendo chato, ele sabe ser engraçado http://migre.me/3Aao1 #mustread [...]
on Jan 12th, 2011 at 01:21
Sergio Leo,
não entendi, afinal, por que você se recusa a dizer ‘presidenta’. As explicações que você dá me parecem insuficientes (porque “manda o impopular manual da redação”) ou cínicas (porque “sou machista”). Qual é, a sério, a razão?
PS: não sei que roupa ele [sc. Jânio Quadros] defendia para as mulheres
Eu achava que ele tinha proibido a minissaia, mas não tenho certeza; com certeza, ele proibiu o uso de biquíni nos concursos de miss.
PPS: Tem alguma coisa errada com suas tags, este texto saiu na de Humor…
on Jan 12th, 2011 at 06:43
Humor é homenagem ao grande laerte, na figura. L.M. minhas razão para não usar presidentaestá espalhada no texto: porque não é hábito e não vejo razões fortes o suficiente. Porque me soa estranho. E porque não é por aí que jugarão o caráter feminista e libertados da gestão Dilma Rouseff. Mas, claro, isso tudo é só disfarce para meu fibrosado machismo.
on Jan 12th, 2011 at 08:15
Eu queria que você me mostrasse o documento no qual a presidenta Dilma exigiu que todos a chamassem de Presidenta. Fiquei realmente curiosa.
No mais, fico feliz que você tenha admitido o seu machismo…sim, querido, ele está impregnado na sua e na minha e na nossa formação. É difícil mesmo. Pode ter certeza de que sou solidária com os seus esforços. Não estou sendo cínica. Eu mesma me pego quase todo dia cometendo alguma ação ou pensamento machista. É um sintoma de milênios de história de dominação. Não vai mudar assim de uma hora para outra.
on Jan 12th, 2011 at 08:26
Como sempre, um texto delicioso. Mas não concordo: se temos prefeita, governadora, ministra, senadora, deputada, por que não presidenta, se é correto gramaticalmente?
Na sua resposta a LM voce diz que não há o hábito…Queria o que? Já pensaram Sarney, com aquele bigode, Lula com sua barba, sendo chamados de ‘presidenta’?
on Jan 12th, 2011 at 09:32
Oi, Sergio.
Bom texto, embora sidneig tenha feito observações com a qual concordo. Ao fim e ao cabo, parece que é uma questão de gosto mesmo (pãos ou pães e uma questão de opiniães, já dizia Guimarães Rosa).
Uma correção: o link para o texto do Marcos Bagno (que, no todo, é melhor do que o péssimo trecho destacado indica) está errado. Abre o artigo do Possenti. O correto é http://www.cartacapital.com.br/politica/presidenta-sim
abs
on Jan 12th, 2011 at 13:02
Obrigado, meu caro! Vou corrigir. Pra você e o Sidneig: não condeno quem queira usar “presidenta”, mas quem faz disso cavalho de batalha, e, principaklmente, quem acha que só o machismo ou, como diz o Bagno, a malévola conspiração midiática explicam a resistência que, na verdade, vem dos que se acostumaram a escrever presidente e não veem nisso sinal de preferência de gênero nenhuma…
on Jan 12th, 2011 at 22:25
Essa discussão não é nada diante do que a nossa presidentEA (assunto encerrado?) está passando com o seu vício-presidente.
on Jan 13th, 2011 at 01:29
Sergio Leo,
eu entendi que você está (cinicamente) admitindo seu machismo para curto-circuitar a conversa; o que eu não entendo, no entanto, é por que você a iniciou. Mas fato é que você a iniciou, e agora eu fiquei interessado.
Sua birra parece ser com as pessoas que acham que a única razão para se recusar a chamar Dilma Rousseff de presidenta é machismo; você acha (não-cinicamente) que existem várias outras razões, possíveis ou efetivas. Como exemplo, você cita três: (i) não é hábito; (ii) não existem razões suficientes para mudar; (iii) porque te soa estranho. (Talvez esta seja uma quarta: (iv) porque não é assim que devemos medir o feminismo do governo, embora isso me parece um ponto à parte.)
A questão, então, é se estas razões são boas, e se, de fato, não são machistas.
(i) com certeza não é boa – como bem apontado por sidneig, todos concordamos que não é hábito haver mulheres no cargo de presidência, e é justamente esta novidade que obriga a reflexão. Esta razão, portanto, não se sustenta, a não ser que você queira fazer uma defesa em princípio do hábito. Confesso que tenho dificuldade de acreditar que você faria tal defesa. Do pouco que conheço de você, você acompanha com interesse, e defende, arte que foge do habitual. Tenho a impressão de que você se delicia com as inovações lexicais de Guimarães Rosa; que você não chama e.e. cummings de E. E. Cummings. Se eu estou certo, apelar para o hábito não pode ser sua palavra final: você tem de explicar por que apela pra ele seletivamente, e, especificamente, por que neste caso.
(ii) é, eu diria, ou ruim ou machista. Deixa eu explicar. As razões para mudar nossos hábitos linguísticos, aqui, me parecem ser (pelo menos) as seguintes: para celebrar esta vitória histórica (que, afinidades partidárias à parte, deveria ser importante para todos nós; é fácil se esquecer de que o voto feminino é uma conquista assustadoramente recente, e a eleição da primeira presidenta deveria marcar, sim, mais um passo rumo à igualdade dos gêneros); porque o uso do termo está sendo reivindicado pelas feministas (a presidenta inclusa), num contexto de reconhecimento político, de tal modo que negar-se a utilizá-lo equivale a negar-se a reconhecê-las politicamente; por solidariedade e gentileza (se não com a pessoa da presidenta, com a causa que ela defende). A meu ver, todas estas razões são mais que suficientes (e por isso sua razão (ii) é ruim). Agora, se você discorda – se você acha que essas razões são insuficientes –, eu concluiria que, no mínimo, você não é feminista (isto é, que você não está seriamente comprometido com a causa da igualdade dos gêneros), e, quiçá (dependendo da sua atitude frente a estas razões), que você é mesmo (i. é, não cinicamente) machista.
(iii) seria uma boa razão, ceteris paribus. Ela até complementaria (i) muito bem: Guimarães Rosa foge do hábito, mas te soa excitante; ‘presidenta’ é só novo e feio. Deixando de lado a complicada questão de o quanto nossos gostos são moldados por sexismo (e racismo, etc.), o problema é com esta razão é que as coisas não são mais as mesmas. O problema é que, agora, a decisão de usar ‘presidente’ ou ‘presidenta’ é política; não dá para fingir que é possível tomar essas decisões no vácuo ideológico. Ainda que fosse – ainda que você conseguisse chegar a sua conclusão por meio de um ascetismo estético –, sua razão, ainda assim, seria ruim: entre o estético e o político, me parece claro que o político deve ter primazia. Isto é, ainda que fosse esteticamente superior dizer ‘presidente’, ainda há o fato de que é (pelas razões expostas acima) politicamente melhor dizer ‘presidenta’; e, como considerações de justiça, respeito e igualdade são mais importantes que as de apreciação estética, conclui-se que (iii) também não é, dado o contexto, uma boa justificativa.
Na minha opinião, posições como a sua são, na verdade, tomadas por ressentimento ao contexto criado, à situação que te obriga a escolher um lado. Você toma um lado sem tomá-lo, e ainda ironiza isso dizendo, a torto e a direito, que é machista. Isso é má fé.
O fato é que não ser machista – ou melhor, ser feminista – implica saber que, às vezes, nossas acomodações vão ser incomodadas, que nossos privilégios vão ser revogados, que a própria linha entre o político e do privado vai ser redesenhada.
Finalmente, algumas palavras sobre seu (iv). Como você já deve ter intuído, eu acho que o feminismo do governo deve ser medido por este caso também. Se é algo (como parece ser) que eleva a moral das mulheres e dá ânimo para novas conquistas, isso já é um ganho. É claro que todos esperamos que o feminismo do governo não acabe aí, mas que aí comece.
Mas o que me incomoda no que você diz é que você parece tirar com uma mão o que você dá com a outra. Você diz que não é por isso que o governo vai ser dito feminista, dando a entender que esta é uma questão menor; mas, por outro lado, se você não está disposto a conceder vitória às feministas nesta “questão menor”, que prospecto elas terão de resolver os grandes problemas – aqueles que mexem com privilégios muito maiores do que o seu senso estético?
on Jan 13th, 2011 at 03:34
L.M. Iniciei a discussão porque vi um movimento estapafúrdio, como o do Bagno, apopntando até motivações partidárias na imprensa para não usar “presidenta”. Francamente.
Não gosto de governos que exigem que eu comemore “vitórias”. Não gostava das aulas de Moral e Cívica, não gosto desse jogo semântico. E não gosto porque acho que ele dá umam impressão de vitória quando, na verdade, não é por aí que se medem as vitórias. Isso de que é preciso “conceder vitórias às feministas” em “questões meonroes como essa” porque, senão, como esperar vitórias em questões maiores é um silogismo. Não preciso chamar a presidente de presidenta para apoiar questões de fundo mais portantes, como a necessidade de peitar a pressão fundamentalista religiosa no tema do aborto, por exemplo.
Ter uma muher no comando já é simbólico o suficiente, não exige malabarismos linguísticos para reforçar isso. Além disso, não vejo a palavra presidente como indicativo de gênero. Acho importante evitar dizer “homem” quando se quer dizer “pessoa” ou “indivíduo do gênero humano”. Mas esse presidenta é desnecessário.
Mas defenderei até a morte o direito de falarem presidenta. E acho engraçado mudar a placa do carro da Presidêncdia para otar o A. O gasto público embutido nisso é mixaria, e o simbolismo tem lá seu humor nesse caso, não me incomodou não. Já dar bronca em assessor porque pelo hábito fala presidente me soa mal. Mal mesmo.
on Jan 13th, 2011 at 03:38
Que é isso, Anrafael, a presença incontornável de de Marcela Temer ao lado de Di8lma e Michel, na cerimônia de posse, em lugar privilegiado, é o tipo de coisa simbólica que ” eleva a moral das mulheres e dá ânimo para novas conquistas”, como admitiria eu se não fosse tão cínico e machista, escolhendo seletivamente o que ver nesse momento histórico.
on Jan 13th, 2011 at 09:29
Como é que se chama a mulher do vice-presidente, além de Marcela Temer? Vice primeira-dama pegaria mal para a primeira-dama se tivéssemos um presidento. Segunda-dama? Isso é lá discussão?
on Jan 13th, 2011 at 12:56
Sergio Leo,
1) A vitória a ser comemorada não é a do governo (é claro que, se alguém é governista, tem todo o direito de comemorar esta vitória também), mas a da nossa sociedade, por estar se encaminhando a ser menos sexista. Há menos de 100 anos, as mulheres não podiam votar; e como simplesmente mudar a lei não é suficiente para mudar a cultura política, muitos anos se passaram até que as mulheres fossem respeitadas na arena política. A eleição da presidenta pode não marcar o fim do sexismo (como a eleição do Obama não marcou um era pós-racial), mas ela é uma importante vitória. Ela pode ser um sinal de que estamos deixando alguns de nossos problemas pra trás (restam vários), mas ela pode muito bem ter sido um grande golpe de sorte, uma exceção. Eu não gostaria disto; se parte do que vai ajudar a manter o espírito da vitória é dizer que temos uma presidenta, por que não?
2) Eu entendo que existe o risco de que tomem, no presente contexto, a opção de alguém por dizer ‘presidenta’ como simpatia ou apoio ao presente governo, em vez de simpatia ou apoio à causa feminista. Eu entendo que você, como jornalista, queira se preservar uma imagem de neutralidade, e que, talvez em parte por causa disso, esteja relutando em adotar o termo. Pra isso, a solução parece simples: é só adotar o termo ‘presidenta’ quando falar tanto de Dilma Rousseff, quanto de (p. ex.) Laura Chinchilla.
3) De onde eu venho, silogismos são raciocínios válidos, mas pra você parece ser um termo de abuso. De todo modo, o principal problema, aqui, é que não é você quem decide quais questões são menores, quais mudanças são desnecessárias – se as feministas acham que isso é importante e necessário, cabe a quem é simpático a sua causa ouvir e responder. Veja que eu não estou nem dizendo que a única forma de responder simpaticamente à causa seja concordando; nem que desacordos locais impliquem desacordos globais. O que eu estou pedindo, apenas, é que estes desacordos locais sejam apoiados em boas razões, sejam bem argumentados. Como eu disse no meu comentário anterior, nenhuma de suas razões são convincentes, e a mais forte é a que coloca sua preferência estética por ‘presidente’ na frente da preferência política das feministas por ‘presidenta’. Eu não vejo como isso não diz, com todas as letras, ‘machismo’.
4) Você diz que é diferente dizer ‘pessoa’ no lugar de ‘homem’ e (no Twitter) que é diferente dizer ‘cadeirante’ em vez de ‘aleijado’, mas diz que a analogia se desfaz no caso de ‘presidenta’; que, aqui, a troca é desnecessária. Por quê? Seria bom que você se explicasse.
5) Finalmente, não há nenhum malabarismo linguístico: é só uma palavra, uma única letra. Isso me choca consideravelmente: o custo da mudança, pra você, é tão baixo (por mais que ‘presidenta’ te soe mal, não é como se a palavra te desse náusea, ânsia de vômito, ou qualquer desconforto prolongado), frente ao considerável ganho das feministas… A preocupação, afinal, não é que você se indisponha àquelas causas feministas a que você é previamente simpático (como o aborto). Não; a preocupação, na verdade, é que haja uma causa feminista mais cara a elas a que você não seja simpático, não porque você tenha boas razões pra tanto, mas simplesmente porque ela não seja do seu gosto. Se abrir mão de um pequeno privilégio (o de usar a língua como ela *te* apraz) é tão difícil, o que esperar quando chegar a hora de revisarmos os grandes? (Pergunta rápida: se sua esposa quisesse abortar, e você quisesse ter o bebê, você ainda assim seria favorável ao direito de as mulheres auto-determinarem seus corpos?)
on Jan 13th, 2011 at 15:32
Caríssima, você me acusou de cinismo e de má fé. magoei. Se eu não fosse do sexo frágil, tenho certeza de que não partiria para o bullying desse jeito.
Brincadeirinha, desculpe. Acho bacana a luta feminista, estimulo isso na minha filha. Mas recuso a interpretação meramente feminista dessa implicância vocabular nos jornais. vejo coisa política mais profunda nisso. De como engajar as pessoas em nossa causas, por exemplo. Ou de como não adotar medidas no campo do simbólico enquanto se fazem concessões muito mais significativas no campo do concreto, por exemplo.
Respondendo à sua pergunta 4: Homem é uma marca fortíssima de gênero, daí eu achar mais que próprio recusá-lo em favor de humanidade, pessoas, etc. Aleijado é óbvio, é pejorativo. Já Presidente sequer é “presidento”, é palavra que não tem necessariamente marca forte de gênero, é quem rpeide, como como gerente é quem gerencia (“presidenta indubitavelmtne tem, daí não condear que Dilma goste que a tratem assim; mas não me obrigue a).
on Jan 15th, 2011 at 22:58
Sergio Leo,
1) Não há menor razão para tanta condescendência. É, contudo, notável que ela tenha atingido seu acme quando você me identificou como mulher. (O que, aliás, gera uma boa questão: por que você assume que eu seja mulher?)
2) Do meu ponto de vista, não houve acossa. Você se disse machista; eu tomei isso como uma confissão cínica, i. é, não-sincera. Perceba que ‘cinismo’ era o mínimo que se podia dizer aqui: você parece achar uma grande piada se chamar de machista. Eu até te chamei (indiretamente) de sem-graça, mas, de novo, isso era o mínimo que se podia dizer. Duvido – ou melhor, duvidava – que você diria, com a mesma leveza e tom jocoso, ser racista, classista, etc. É lamentável que, por um motivo que ainda não me é claro, você considere a causa feminista digna de chacota. (Existe, claro, a possibilidade de você ter dito que era machista sinceramente. Não foi assim que te interpretei, mas, ainda assim, você estaria sendo cínico, por confessar, jocosamente e sem intenção manifesta de querer mudar, que é.)
3) Quanto à má fé, talvez você me tenha entendido mal. O que eu quis dizer é que você quer tomar uma escolha sem arcar com as responsabilidades dela – no caso, você quer adotar ‘presidente’ fingindo que dá para colocar entre parênteses todo o contexto político em torno do termo, e decidir as coisas como se nada houvesse mudado, baseado simplesmente nas suas preferências estéticas.
4) A luta feminista não é “bacana” – ela é necessária, se quisermos que haja igualdade. (Você diria que acabar com a pobreza é bacana? É melhor que ser contrário, claro; mas não parece, nem de longe, os mais altos termos de endosso.) E esta luta não é só da sua filha; ela é (ou deveria ser) sua também. Talvez você a estimulasse mais se servisse de exemplo.
5) Você diz que recusa “a interpretação meramente feminista dessa implicância vocabular nos jornais”, mas eu não estou discutindo com os jornais; discuto com você. Você diz que vê “coisa política mais profunda nisso”, mas eu não entendi o quê, exatamente (o restante do seu parágrafo é alusivo demais pra mim). Pode ser; gostaria de te ouvir expandir este ponto. Mas lembre-se que, até agora, sua justificativa para não adotar o termo ‘presidenta’ não foi política; você disse, simplesmente, que não era hábito e que te soava estranho.
6) Não acho que tenha novidade alguma no que vou dizer, mas, como parece que não fui claro da primeira vez, acho que vale repetir: não é você quem decide o que é ofensivo ou não a uma minoria; não é você quem decide qual marca de gênero é ou não opressiva. Estas coisas mudam com o contexto (vide alguns termos de abuso serem reapropriados e resignificados por certas minorias), e o presente contexto parece ter gerado uma dessas mudanças (ironicamente, a resistência da imprensa em adotar ‘presidenta’ parece ter intensificado o problema). Não confunda, aliás, gênero gramatical com gênero – o termo ‘presidente’ foi percebido como marcadamente masculino porque, até hoje, nenhuma mulher havia governado o país. Não tem absolutamente nada a ver, portanto, com a morfologia da palavra.
7) Finalmente, você não parece entender direito a acusação de machismo. Ela não se aplica exclusivamente aos casos em que o jornalista intencionalmente decide minar o poder das mulheres, ou alguma coisa do tipo. (No seu texto, você reduz a acusação de machismo a esta, e reduz isto a um cenário conspiratório maluco. É fácil refutar esta caricatura…) O machismo às vezes é decorrência simplesmente de se seguir o hábito, de se recusar a fazer aquilo que te soa estranho; pode não ser intencional, mas não deixa de ter menos efeitos negativos. Como eu argumentei antes, este é um desses casos: de todas, sua melhor justificativa para não adotar ‘presidenta’ apela para seu gosto pessoal. Em outras circunstâncias, normal. Nas presentes, quando seu gosto pessoal ofende feministas, me parece, no mínimo, um pouco perverso (perversão que seu post-chacota só torna pior).
on Jan 18th, 2011 at 11:55
MInha(meu? agora me confundi) cara(o), se a imagem de cínico em amchista cionstruída por voc~e te impede de ler com leveza o texto, vou ser mais direto: quando digo “sou machista”, estou fazendo não uma demonstração de cinismo, mas uma irnoia, isso quer dizer :”para certos critérios que não são os meus, eu sou o que certas pessoas chamamd e machista; descobri entrando nessa polêmica sobre presidenta”.
Quando falo em gosto, hábito etc, apenas cito uma circunstãncia; o cerne de meu argumento, que minha incompetência impede de ser entendido, é: embora reconheça a importãncia concreta dos símbolos e dio discurso, me incomoda essa ênfase sobre a troca vocabular, pois me passa a impressão de abafar uma discussão mais concreta e imediata: o que, de prático, o governo Dilma faz para alçar a mulher a uma posição de igualdade _ ou, até, de superioridade, se for o caso.
A falta de mulheres disponíveis para ocupar cargos de poder na aliança política que compôs o ministério é uma marca simbólica, mais forte, a meu ver que trocar e por a numa palavra onde esse E não é marca de gênero.
(e só para constar: eu não disse que minha filha é feminista e eu machista; digo que minha visão do femionismo s eesopelha na criação que dou à minha filha, sem ranços machistas e preconceituosos que vejo em tantas famílias; isso é mais exemplar que bradar pela troca de vocábulos no caso em tela).
on Jan 18th, 2011 at 20:19
Caro,
eu entendi perfeitamente que se tratava de uma (tentativa de) ironia; a questão, porém, é se a ironia foi feliz. Como você diz, sua ironia consistia em dizer algo como “se quem não faz XYZ é machista, então sou machista”, no intuito de dizer tanto que você não é machista, quanto que você rejeita estes critérios para determinar quem é ou não machista. Até aí, tudo claro.
O problema do seu texto, como apontei desde meu primeiro comentário, é que você não dá razões muito claras para rejeitar estes critérios, e seu tom jocoso faz parecer que a discussão é toda muito ridícula, como se nem fosse preciso dar razões, de tão patéticos que estes critérios são. Acontece que muitos de nós não pensamos assim – tanto é que a aiaiai, aí em baixo, tomou suas palavras literalmente; afinal, se ela concorda com os critérios, ela não tem o menor motivo para detectar ironia na sua confissão de machismo (ela pode ter detectado, como suspeito que detectou, intenção de ironia; mas isso é tudo que detectamos quando ironias são infelizes).
Há, porém, outro sentido em que sua ironia foi infeliz: não me parece razoável fazer piada das causas de minorias, principalmente quando você está na confortável condição da maioria. Se você discorda, discuta seriamente (ou, se não aguenta o ônus, não discuta). Humor é algo complicado, e muitas vezes a linha entre a ofensa e a graça é tênue (neste caso, eu honestamente não acho que era tênue). Neste aspecto, acho que sua atitude foi auto-centrada; mas não só neste, como já disse antes: você não parece seriamente disposto a entreter, nem que por um momento, uma defesa séria da posição feminista. (Vide, p. ex., sua insistência de que o –e de ‘presidente’ não é marca de gênero, mesmo após eu ter te instado a não confudir gênero gramatical com gênero.)
É legal que você tenha elaborado, nesta nova resposta, suas razões políticas (em contraposição às estéticas de respostas anteriores) para não adotar ‘presidenta’; nas suas palavras: me incomoda essa ênfase sobre a troca vocabular, pois me passa a impressão de abafar uma discussão mais concreta e imediata: o que, de prático, o governo Dilma faz para alçar a mulher a uma posição de igualdade. Isto, na verdade, não me convence, pelos seguintes motivos:
(i) alguém pode apoiar a causa simplesmente adotando o termo ‘presidenta’; isso não implica nenhuma perda de tempo ou excesso de esforço que prejudicaria o apoio a outras causas;
(ii) mesmo que alguém milite a favor do uso do termo ‘presidenta’, me parece plenamente possível, e altamente plausível, que esta pessoa possa se dedicar a outras causas. Em outras palavras, não vejo por que haveria abafamento de outras discussões;
(iii) a ênfase na troca vocabular foi gerada porque houve resistência ao novo termo; se todos tivessem adotado ‘presidenta’, isso já seria notícia velha, e poderíamos todos, coletivamente, focar toda nossa atenção em outros problemas;
(iv) sua preocupação com o concreto, com o imediato, com o prático me parece fora de lugar. Assim como o combate ao racismo não vai colher seus frutos em um mês de governo, a luta pela igualdade das mulheres também não vai;
(v) você parece achar que, ao comprar a briga por ‘presidenta’, as feministas estão se tornando reféns cegas do governo, aliadas demais para poder criticá-lo. Afora isso não estar embasado, há que se notar o outro lado: se Dilma Rousseff criar suas bases de apoio nas feministas, ela terá, sob pena de perder respaldo público, de contemplar estas bases. Símbolos crescem maiores que seus criadores.
Note, especificamente, que o apoio que nós, feministas, esperamos de você não é maior que (i), isto é, que você adote o termo ‘presidenta’. Honestamente, não vejo como isso abafaria suas críticas.
Dando um passo atrás, gostaria de corrigir uma impressão errada: eu não pintei sua imagem como cínico e machista. Eu certamente mal te conheço, e o pouco que conheço é inferido a partir dos seus textos que leio (que nem são, a bem da verdade, todos os que você escreve ou publica). O que eu falei foi que sua decisão, neste caso, tomada pelas razões que você disse ter tomado, era machista – i. é, perpetuava estruturas machistas. Eu não quero inferir disso que sua atitude foi deliberadamente ou intencionalmente machista, nem que ser machista seja um atributo do seu caráter.
Finalmente, um PS: li sua entrevista com Marco Aurélio Garcia, e em certo momento li ele falar algo sobre ‘a presidente’. Na hora, fiquei na dúvida: ele falou ‘presidenta’ ou ‘presidente’? Estamos lendo as preferências do MAG, ou elas estão sendo filtradas pelas do Sergio Leo? Então, pra fechar, gostaria de pedir que você refletisse um pouco sobre as responsabilidades do jornalista em casos assim.
on Aug 11th, 2011 at 15:29
Primeiramente, meus parabéns pelo texto, pelas idéias e informações.
Entrei aqui porque eu achava certo utilizar “presidente” e errado utilizar “presidenta”.
Mas devo dizer que a discussão travada entre você, Sérgio, e o (a) LM foi uma das melhores discussões que eu já presenciei na minha vida. Simplesmente fantástica.
Primeiramente, foi uma discussão entre duas pessoas instruídas, respeitosas e que defendem realmente seus pontos de vista. Não querem simplesmente fazer polêmica, ou aparecer. Não descambou para a briga (como costuma acontecer). E foi extremamente esclarecedora para mim.
A cada novo “reply” de vocês eu ficava aqui pensando: “Putz! Agora eu quero ver”.
No fim, ganhei eu. E os outros leitores que também acompanharam. Foi uma discussão formadora de opinião. Eu refiz totalmente minha opinião sobre essa briga toda da letra no fim da palavra.
Conclusão: Eu ainda acho que “presidente” é a forma correta, por motivos puramente gramaticais. Refletem o gênero gramatical e, afinal de contas, a gramática é quem deve regular o uso das palavras, a meu ver. Quem é – ente. Quem ataca – atacante. Quem beneficia – beneficente. Quem gerencia – gerente. E quem presite é presidente. O artigo A já serve para indicar o gênero gramatical.
Mas eu já não condeno mais a utilização de “presidenta”. Isso porque, como a LM disse, além do gênero gramatical, existe o gênero atrelado à palavra. Este, mais amplo. É um símbolo da luta (símbolo – por isso mesmo, não abafa a discussão mais profunda da causa), do momento político e das atuais conquistas. Sou simpático e, até certo ponto, defensor de todas. São extremamente necessárias. Eu digo só até certo ponto defensor porque discordo de extremismos em qualquer luta, de qualquer causa.
Assim, meu gosto pessoal, é pela utilização de “presidente”. E, a meu ver, essa escolha não tem nada a ver com machismo.
Por outro lado, não mais criticarei quem utiliza-se de “presidenta”. Entretanto, entenderei como extremismo e radicalismo a imposição e obrigação a que todos utilizem esta última forma, escorada na justificativa de machismo.
Por fim, só devo agradecimentos:
Obrigado, Sérgio!
Obrigado, LM!
Textos fantásticos os de vocês!