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Não se faz literatura no vizinho?

Eu estava no Paraguai, creio que no século passado, e, na frente do terrível hotel onde me hospedei (há bons hoteis no Paraguai, mas esse não está no clube), havia um café internet.
(Era uma época de cafés Internet).
Na parede, desenhos em estilo bico de pena, com autores paraguaios. Ou latino-americanos, não sei; não identifiquei nem o Augusto Roa Bastos que, tenho certeza, estava lá, revestindo a parede.
Deu vergonha. Me dei conta de que, à parte os óbvios, eu desconhecia os autores dos países vizinhos, os escritores de língua espanhola. Para confessar a verdade, desconhecia e desconheço ainda os novos autores de língua portuguesa editados fora do Brasil. Mas, como tudo que me envergonha, a experiência me motivou a evitar novos vexames. Ou tentar, pelo menos.
Passei a aproveitar as viagens pelo continente para tomar contato com os autores; a começar pelos nem tão novos, mas desconhecidos no Brasil. Gente de quem se fala menos do que se deveria, por aqui, como Juan José Saer, de quem comprei Cicatrices, numa banca em Buenos Aires. Ou – esse até é mais falado (e traduzido) _ Juan Carlos Onetti.
O que notei, a partir dessa experiência, foi a ausência dos escritores latino-americanos nos blogues e colunas literárias por aqui, a não ser quando esses escritores passavem por dois filtros: 1) ganham fama nos países anglo-saxônicos ou, em menor escala, na França _ caso do nosso amigo admirado Roberto Bolaño, exemplo lapidar; ou 2) aparecem na Flip, viva ela.
Os comentaristas ou críticos brasileiros que escrevem para blogue ou jornal aparentemente não conseguem acompanhar o que se publica na vizinhança. Ou têm alergia a cucaracha.

Daí passei a ter vontade de, com a modéstia que minha mediocridade autoriza, brincar nesse playground despejado. Juntando o gosto com a tara, decidi que uma de minhas resoluções de Ano Novo seria essa, escrever regularmente sobre os bons autores que, inexplicavelmente, não são falados por aqui, por complexo ou ignorância, quem sabe.
Há uns meses, na Colômbia, entrei em uma livrariazinha minúscula, e, enquanto olhava a estante, ouvi um “buenos dias” que me fez olhar para trás, envergonhado por não ter cumprimentado o caixa. Eram dois, no caisa, um casalzinho simpático, de quem comprei, por sugestão deles, meia dúzia de livros de autores colombianos contemporâneos. É com um deles que começo essa nova fase do Sítio.
Chama-se, Juan Gabriel Vásquez, escreve maravilhosamente bem e merece atenção. Em breve, falo dele aqui.

8 Comentários on “Não se faz literatura no vizinho?”

  1. #1 Sul 21 » Não se faz literatura no vizinho?
    on Dec 30th, 2011 at 07:22

    [...] Leia mais. [...]

  2. #2 Franklin Cunha
    on Dec 30th, 2011 at 15:19

    Tens razão Sergio Leo. Para conhecermos autores altino-americanos este, primeiro, tem que passar, como dizes, pelo crivo norte-americano ou francês ou inglês. Aquí ao lado na Argentina há, principalmente ensaistas de alta qualificação intelectual e que nem os intelectuais daquí ouviram falar e muito menos ler.Já fiz esta constatação com 3ou 4 autores argentinos que gozam lá de alta reputação e com oito mais edições de seus livros e que escrevem em espanhol, portanto muito acessíveiss por nós, gaúchos principalmente ( na Tv de Rio e SP quando entrevistam um argentino, põem legenda, já viu?).
    Ei-los:
    Juan José Sebreli
    Esther Diaz
    José Pablo Feinmann
    David Viñas
    Beatriz Sarlo ( esta é um pouco conhecida aqui)
    Horacio Verbitsky
    Enfim, como vc diz, não se faz literatura com o vizinho.
    Bom tema para um esclarecedor debate investigativo.
    Parabéns
    Franklin Cunha

  3. #3 Jose
    on Dec 30th, 2011 at 22:28

    Caro Sergio Leo,
    Há uma série de fatores contribuindo para a nossa ignorância a respeito dos vizinhos.
    Já falaste, mas não custa repetir. Nossos editores procuram traduzir obras que fizeram sucesso nos Estados Unidos, e, em menor número, na Europa.
    Historicamente nossos governos não deram muita prioridade para os países sul-americanos, o que se reflete inclusive no estudo de História. Estudamos sobre Revolução Francesa na escola, mas não ligamos isso aos processos de independência nos países vizinhos.
    Sendo ignorantes a respeito da História dos vizinhos, nada mais natural que sejamos ignorantes a respeito da literatura produzida neles.

    P.S. Continua avisando de textos novos no blog pelo Twitter.

  4. #4 sleo
    on Dec 31st, 2011 at 07:36

    Franklin, José, obrigado peloscomentários. Vocês me animam a retomr o blogue com essas conversas, que são o que este Sítio tem de interessante.

  5. #5 Luiz Henrique
    on Jan 1st, 2012 at 08:48

    As primeiras páginas de El ruido de las cosas al caer parecem bem interessantes. Essa série do Sítio vai fazer sucesso. O texto está disponível acho que no site da editora.

  6. #6 Raimundo Neto
    on Jan 1st, 2012 at 19:28

    Reflexão inspiradora, Sergio.

    Sugiro ainda uma escritora mexicana: Cristina Rivera Garza. Há apenas um título dela publicado no Brasil, e de uma qualidade incrível. Interessante que ela também produz uma literatura de primeira no próprio blog dela!

    Parabéns! Acompanharei seus pensamentos.

  7. #7 Isaías Caminha
    on Jan 1st, 2012 at 22:25

    Sérgio,
    Espero que entre os colombianos que você comprou esteja o Fernando Vallejo, enfant terrible (nem tão enfant) da literatura colombiana e, para mim, dos grandes escritores vivos. Fiz uma resenha de “El desbarrancadero”, do Vallejo. É de uma violência verbal rara e genial.

  8. #8 sleo
    on Jan 17th, 2012 at 08:48

    Caro Isaías, desde que li sua sugestão, ando procurando os livros que comprei na Colômbia para ver se há o Vallejo no lote. Não consigo lembrar onde os enfiei. Mas sigo catando.
    Raimundo, anotado.
    Franklin, anotado!
    Obrigado, moçada.