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As redes e os enredados

Umberto Eco, guru querido que completa 80 anos, marcou meus tempos de faculdade com um livro, Apocalípticos e Integrados, em que dividia os teóricos entre os que viam na chamada cultura de massas um desastre diluidor e alienante, nocivo às liberdades e à riqueza da experiência dos indivíduos, e os que saudavam eufóricos as novas tecnologias e novas formas de produção da cultura. Bons tempos, em que era tão fácil dividr os grupos.

Hoje, a voz dominante, à esquerda e à direita, é a que comemora a força das redes sociais na Primavera Árabe _ não importa se as revoltas foram massacradas em países como o Bahrein, a Líbia se viu engolfada em uma disputa de tribos e, enquanto pedem pena de morte para o ex-ditador Hosni Mubarack, os mesmos militares que serviram a ele controlam o poder no Egito e já mataram uns democratas que insistiam em ficar na praça.

Numa palestra recente _ e ilustrativa _ em Oxford, que pode ser ouvida (em inglês) AQUI, a ex-assessora de Hillary Clinton Anne-Marie Slaughter comentava que hoje em dia não se pode falar de relações internacionais como o jogo entre Estados, governos com governos, numa disputa de poder e supremacia; esse terreno agora tem de levar em conta também as relações colaborativas entre governos e sociedades e sociedades e sociedades, em iniciativas como a Wikipedia, redes internacionais de cientistas ou interações entre Estado e ONGs, por exemplo. Ela dizia como o “desenvolvimento” tem de ser parte das ações governamentais, de como os EUA fortaleceram o Usaid, sonhando em fazê-lo musculoso como o DFID inglês, para envolver as populações em objetivos como melhoria da saúde, combate ao aquecimento global, fim do terrorismo.
Slaughter é um nomezinho infeliz para uma pessoa pacífica, “massacre”, em inglês. O interessante da coisa toda é a confiança dela na faceta positiva das mudanças proporcionadas pelas redes propiciadas pela globalização e pela Internet, nosso meio de comunicação de massas mal pressentido pelos teóricos listados pelo Eco.

Há quem veja nesses meios o apocalipse para o intelectual elitista e a gênese de um novo mundo criativo. Há quem veja com ceticismo que vê na Internet uma revolução radical.

Eu, que ia apenas fazer mais um post enquanto não entrego o texto que prometi, sobre o Juan Gabriel Vasquez, acabei me estendendo demais, quando queria também, e apenas, comentar a preciosa entrevista do George Steiner _ mais para apocalíptico que para integrado _ que tocou num aspecto não abordado pelos profetas do mundo novo das redes, das colaborações em nuvem e das primaveras de pobre: ao mesmo tempo em que nunca tivemos tanta informação à nossa disposição, nunca o saber foi tão complexo, tão sofisticado (Daniel Piza lembrava que a palavra vem da mesma raiz de sofista), tão inacessível.

Os intelectuais, especialmente os literatos, não conseguem dar conta do conhecimento que é base do desenvolvimento das sociedades atuais. “O conhecimento não se comunica”, disse ele. E disse mais, ao comentar que os escritores abandonaram as grandes pretensões filosóficas, as ambiciosas narrativas abrangentes:

“A literatura escolheu o domínio das relações pesssoais em pequena escala e não trata mais dos grandes temas metafísicos. Não temos mais escritores como Balzac ou Zola, gênios da comédia humana que podiam explorar qualquer campo. Proust também criou um mundo inesgotável, e o Ulisses de Joyce é ainda muito próximo de Homero…Joyce é a ponte entre os dois grandes mundos do classissimo e do caos. No passado, filosofia também podia proclamar-se universal. O mundo inteiro estava aberto ao pensamento de um filósofo como Espinoza. Hoje, uma imensa parte do Universo é fechada para nós.
Nosso mundo está encolhendo. A Ciência está se tornando inacessível para nós. Quem pode entender a última inovação em genética, astrofísica, biologia? Quem pode explicar elas ao leigo? O Conhecimento não se comunica mais; escritores e filósofos dos nossos tempos são incapazes de nos habilitar para entender ciência. Ao mesmo tempo, o escopo da imaginação na ciência é deslumbrante. Como podemos ter a pretensão de falar da consciência humana se não olhamos para o que é mais ousado e criativo? Estou preocupado com o que significa ser literato hoje em dia. É possível ser literato se voc~e não entende uma equação não-linear?”

E eu que já lamentava ter abandonado a matemática, que adorava na escola, só pelo trabalho que me dá hoje quando escrevo sobre economia…

O resto da entrevista está AQUI. E, garanto, vale a pena.
: o Luis notou bem, há uma versão em portugues (claro) para a entreviosta do Steiner. Aqui.

4 Comentários on “As redes e os enredados”

  1. #1 marcos
    on Jan 6th, 2012 at 08:42

    Esse paralelo que fizeram na Economist da Reforma com a Primavera Árabe ficou bem interessante. http://www.economist.com/node/21541719

  2. #2 Sul 21 » As redes e os enredados
    on Jan 6th, 2012 at 12:26

    [...] Leia mais. [...]

  3. #3 Luiz Henrique
    on Jan 10th, 2012 at 12:00

    E o George Steiner ainda é fã do Harry Potter! Maravilha!

  4. #4 Luiz Henrique
    on Jan 10th, 2012 at 12:02

    PS: no fim da página da entrevista tem uma opção para clicar e ler em português