Carpeaux, Jorge Amado, José Sarney

Coisas da idade: no Reveillon, dancei como John Travolta (tentei imitar só aquela parte ali pelo 1 min e 40 seg, já fiz muito isso após o segundo uísque). Pois estou até hoje com o joelho estourado, o que nunca aconteceu antes.

A proximidade dos 50 é uma época de acontecer muita coisa nunca antes acontecida, e, por isso, na semana seguinte, comecei o Pilates. Nisso dá não imitar regularmente o John Travolta, diagnosticou Oliveira, o canalha de estimação que temos lá na sucursal do Valor em Brasília.

Outra coisa que veio com a idade também é a perda de memória. Já não sei se contei essa história cá no Sítio, e, que, diabo, conto assim mesmo: eram os anos 80, eu morava em Copacabana no espaçoso conjugado de dona Edith, no qual eu tinha o cuidado de entrar sempre devagar para não erra o passo e cair pela janela, quando uma das senhoras que jogava buraco com minha saudosa avó me convidou para recolher, na casa dela, os livros que me interessassem do falecido marido jornalista. O abençoado ex-escriba não tinha uma biblioteca, tinha um tesouro de prateleira.

Saí da casa da parceira de biriba de dona Edith com duas sacolas de supermercado cheias. De Eça de Queiroz (casa Lello Editores), Almeida Garret, o Urupês de Monteiro Lobato, artigos de Euclides da Cunha, um Brito Broca que ainda editarei e, entre outros, Otto Maria Carpeaux. No Retratos e Leituras, encontrei a chave para atravessar o Ulysses de Joyce, num texto erudito e saboros; em Perguntas e Respostas, encontrei um ensaio genial, Falsificações, que tangencia a discussão contemporânea sobre o plágio na literatura, num comentário sobre como a “originalidade artística” é invenção relativamente recente.

Nem lembro o nome da benfazeja amiga de minha avó, que me deu de presente a paixão por Eça e pelo Carpeaux. mas lembrei dela com carinho ao ver o pobre austríaco em meio à polêmica sobre a generosidade do presidente (do Senado) José Sarney, ao doar à Leya o projeto gráfico pago pelo orçamento público para a reedição da espetacular História da Literatura Ocidental. Bela coleção, aliás, que, na publicação da Editora do Senado, aparece atrás desse bonitão aí da foto ao lado.

A discussão me fez buscar o Retratos e Leituras, e, ao abrir o livro, me caiu ao colo um recorte que já tinha esquecido, guardado lá em 2009, da seção O Globo há 50 anos, contando uma troca de sopapos entre o Carpeaux e… o Jorge Amado (!).

(o texto desse recorte está AQUI)

Coitado, o Carpeaux, além de franzino, acho, era gago. Não se sabe quem mais bateu ou apanhou; não há foto do resultado desse pugilato literário, como há do famoso encontro do canalha do Garcia Marques e Vargas Llosa.


O fato é que, parece, os comunistas da turma de Amado acusavam Carpeaux de nazista; logo ele, que fugiu da Europa de Hitler e corajosamente criticou a ditadura que se impôs ao país nos anos 60. As credenciais progressistas e até meio porraloucas do poliglota são atestadas pelo Leandro Konder, outro comuista de boa cepa, num texto que, no fundo, é razão de todo esse post. História da qual dou o link e reproduzo só o filé:

“…os estudantes enchiam o lugar onde íamos debater. Percebi que, entre eles, as tendências de esquerda mais extremadas eram hegemônicas. Os ventos iam soprar mais para o lado do Carpeaux do que para o meu. Tive, então, por um momento, um pensamento mesquinho: “Tomara que a gagueira atrapalhe o discurso dele.””

O resto, repito, está nesse link AQUI.

Ah, e como brinde um elogio ao Carpeaux, de um sujeito insólito, com links para quatro textos dele: AQUI.

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