
A livraria era pequena, da calçada vi a lombada de um livro do Bioy Casares e entrei, direto para a estante, próxima à porta. Ouvi um “buenas tardes” (é, sei que num post anterior disse ter ouvido um “buenos dias”; a memória é traiçoeira, mas tento ser fiel às lembranças). Na frente dos livros, envergonhado, me virei para cumprimentar a pessoa no caixa; eram duas pessoas, um casal, a quem pedi indicações de literatura colombiana e que acabou me vendendo uns cinco livros, entre eles o “El ruído de las cosas al caer”, de Juan Gabriel Vasquez, recém brindado com o Prêmio Alafaguara de Novela 2011.
E a primeira frase me jogou no colo um paquiderme: “O primeiro dos hipopótamos, um macho de cor de pérolas negras e tonelada e meia de peso, caiu morto em meados de 2009”.
Mais que o prêmio espanhol, o título poético e o insólito primeiro parágrafo fizeram o livro entrar na minha cesta de compras. Vasquez fala do zoológico montado pelo traficante Pablo Escobar; saberemos mais tarde no romance, que foi uma espécie de Disney proibida para certa geração de garotos colombianos. Alguns, escondidos dos pais, acompanharam outras crianças à maravilhosa coleção de animais na mansão do criminoso _ abandonada, depois da queda do cartel de drogas, os animais deixados às moscas.
Filho de advogado que queria vê-lo trabalhar na firma da família, Vasquez estudou literatura latino-americana na Sorbonne, é tradutor de E.M. Foster, John dos Passos e Vitor Hugo, e tido como um dos pilares da narrativa colombiana atual. Escreve de Barcelona, para onde se mudou há um bom tempo. Diz que o escritor escolhe suas influências, e as dele são Philip Roth, Saul Bellow, Joyce e Joseph Conrad. Ele participa ativamente da vida política colombiana, com uma coluna no jornal El Espectador e uma obsessão _ que as entrevistas dele mencionam, sempre _ pelo país. Não é um escritor folclórico, mas é profundamente colombiano, com o cosmopolitismo que tem a elite colombiana.
Os hipopótamos, diz o texto de “El Ruido de las Cosas al Caer”, encerram um episódio na vida do protagonista. Ele narra em primeira pessoa a história do misterioso _ e, ao final, nem tão misterioso assim _ Ricardo Laverde, cujo pai sobreviveu criança a um acidente de uma esquadrilha da fumaça. O protagonista também é um sobrevivente, de um atentado que matou o próprio Laverde, aviador, pai de uma ermitã com quem o narrador se encontrará, resolverá um enigma e chegará a uma encruzilhada na vida. 
Ficamos sabendo das aventuras e romance de Laverde e dos sonhos e desgraça de sua mulher, uma americana bem intencionada e romântica, ao mesmo tempo em que caminha uma estranha e íntima relação entre o narrador e a filha do aviador. Vasquez nos fala, na verdade, dos colombianos e sua dolorosa procura de sentido, num país em que o tráfico da droga, iniciado por aventureiros dos Estados Unidos, começa como uma circunstância a mais e até oportunidade de negócio; e termina como doença cancerosa, sangrando a sociedade e, sem metáfora, explodindo certezas.
Vasquez ao comentar seu primeiro livro traduzido no Brasil, AQUI, disse (e repete, com frequância) que “a melhor razão que temos para escrever sobre algo é, precisamente, não entendê-lo, não conhecê-lo”.
Nesse esforço de contar o que não entende, ele domina a descrição com uma malícia de dar inveja, faz coisas banais ganharem luzes espetaculares, ou banaliza o que na mão de alguém menos habilidoso pareceria exótico. Colômbia está no romance com sua estranheza sem realismos mágicos. Me lembrei de como me impressionou, na primeira vez em que fui a Bogotá, a exibição de chagas e sofrimento nas estatuetas de uma loja de figuras religiosas, e seu eco na extraordinária exibição de sado-masoquismo do museu de Arte Sacra, onde telas e esculturas de madeira repetiam rostos macilentos e feridas de sangue coagulado. Elaine, a mulher de Laverde, sente uma curiosa familiaridade na igreja que visita, pouco antes de casar, no centro de Bogotá, onde encontra figuras do Cristo, uma delas em uma “jaula” embaixo de um altar: “…encerrado como um animal em exibição, havia um segundo Cristo, de cabelo mais longo, pele mais amarela e sangue mais escuro. ‘É o melhor de Bogotá’, le havia dito Ricardo, uma vez.”
É um livro triste, com uma ironia branda, pouco agressiva. Elaine, órfã, quer fazer o bem e se considera uma fugitiva de uma América que já não é mais a do sonho, mas a dos massacres de Vietnam, do assassinato de ativistas como Malcom X; Ricardo, filho de um casal da elite decadente, obrigado a alugar quartos para complementar a renda, quer sair da mediocridade miserenta em que vê os pais. Antônio, o narrador, se vê irresistivelmente encantado pela história de Ricardo Laverde, cuja filha, Maya, se afasta do mundo que descobriu ser diferente do que sempre acreditou na infância.
São personagens em busca de identidade, como a Colômbia que não se resigna a ser praça de batalha com o tráfico. Uma procura pós-moderna que Vásquez relata com uma combinação inventiva de recursos tradicionais. Logo ao começar o romance, o narrador justifica seu texto como uma catarse, ou mais bem um acerto de contas, “como quem volta a casa para fechar uma porta que ficou aberta por descuido”. E a história é completada, em seus lapsos, por registros como os que contam despretensiosamente a nossa contemporaneidade: recortes de jornal, a gravação de uma caixa preta de avião, o recado de secretária eletrônica, cartas de uma jovem num país exótico.
O que são as coincidências: poucas semanas após voltar ao Brasil vindo da Colômbia, li no Estadão uma matéria de página inteira a respeito de um documentário… sobre os hipopótamos de Pablo Escobar. Além dos bichos que Vásquez mata logo no começo de seu livro, havia outros no tal zoológico, que sobreviveram e se transformaram em colossal problema para os colombianos. Violentos, saem em busca de fêmeas que não têm como encontrar, destroem plantações, ameaçam gente. Perigosos, imprevisíveis, são meio assim como traficantes desvairados, só que defendidos pelos protetores de animais.
Metáforas pobres como essa aí em cima sobre os hipopótamos não dão conta da Colômbia. Romances como o de Juan Gabriel Vasquez, sem a pretensão de ser alegoria, sim. “Esta história, como se adverte nos contos infantis, já aconteceu antes e voltará a acontecer”, diz ele, quando, a pretexto de contar a vida de Ricardo Laverde, começa a relatar o que, na verdade, é uma busca de lógica, num mundo em que são parte da experiência de uma geração os hipopótamos exilados, a sombra perene de traficantes mortos e a melancolia dos desencontros amorosos.


