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A Invenção da Mona Lisa

É arrancar o verniz antigo de alguma obra de Leonardo da Vinci para descobrir novidades _ antiguidades, no caso _ sensacionais. Foi assim com a Virgem e os Rochedos, que se descobriu não ter intervenções dos roliços discípulos do mestre; foi assim também com a Sant’anna, a Virgem e o Menino, que rendeu acusações de dano à obra (coisa possível, já que o artista fazia o diabo com os vernizes e as tintas misturados na tela). Agora, o fuzuê não se deu com Leonardo, mas com a obra de algum íntimo aprendiz, que teria acompanhado o pintor em tempo real, pintando sua própria Mona Lisa. Tirando o verniz escuro, descobriu-se uma Gioconda menos baleada, com detalhes que o tempo apagou do original. A notícia, para você que acaba de chegar da Antártida e não leu nenhum jornal desta semana, está AQUI.

Como minha implicância com Gisele Bundchen, mito cuja origem consegui traçar até seus quinze anos de idade, paparicada pelo Paulo Francis (talvez o primeiro a chamá-la, exageradamente, de mulher mais linda do mundo), a turma aqui do Sítio se rebela contra a transformação da Gioconda, de Leonardo, em aijisus supremo da arte da Renascença. Como Gisele, a Mona Lisa tem qualidades extraordinárias, e é única, a seu modo; mas, assim como a modelo brasileira não é o ápice e resumo da beleza feminina, a Gioconda é uma _ mas uma, entre outras _ das obras-primas de Leonardo.

Ah o sorriso. Como diriam os renascentistas, é o sfumatto, stronzo! Para um contemporâneo de Leonardo como Giorgio Vasari, não havia mistério, mas profunda beleza naquela “boca, cuja fenda termina em
cantos de um vermelho que se une à carnação de seu rosto, e na verdade não parece ser feita de tinta, mas de carne”.
Leonardo, diz Vasari (que era meio cascateiro, vai saber isso é mesmo verdade), usou um truque “para eliminar aquela melancolia tão frequente na pintura e nos retratos”: “enquanto retratava a Mona Lisa, que era belíssima, por perto sempre havia pessoas a tocar ou a cantar, bem como bufões que a mantinham alegre”. E foi assim que conseguiu “um sorriso tão agradável, que mais parece coisa divina que humana, tão admirável por não ser diferente do natural”.

Em matéria de boca marota e sorriso discreto, Leonardo pintou na mesma época, com sorriso parecido e esfumado, algumas donas, ou melhor, a própria Madona, em quadro anterior à Monalisa, como a Nossa Senhora, Sant’Anna e o Cristo (ou o menino), velha obsessão cá neste Sítio, onde já contei como Sigmund Freud, nosso tarado favorito, via nesse quadro indícios da homossexualidade de Leonardo.

Vasari não endossa muitas das teses sobre o êxito da Mona Lisa, e, como botei num link aí em cima, é falso atribuir a Leonardo _ que a aperfeiçoou _ a invenção do sfumatto, essa técnica de mesclar as cores esmaecendo o contraste entre as áreas de sombra e luz.
Vasari também descreve com detalhes os cílios da figura, (“representados no modo como nascem da carne, ora mais densos, ora mais ralos, obedecendo ao giro dos poros, não poderiam ser mais naturais”), o que confirma a tese dos especialistas de que as sucessivas intervenções “restauradoras” na obra acabaram por levar, com o verniz, as sobrancelhas e os cílios da pobre Mona Lisa. Espero ansioso a divulgação da cópia restaurada pelo Prado, para ver se nela mantiveram as pilosidades da moça.
Famosa, ela já era, e muito, no começo do século passado, quando Duchamp a submeteu a uma avacalhação dadaísta, pintando-lhe uns bigodes e pespegando-lhe um trocadilho no título.

Mas não tenho dúvida de que o começo da transformação da Mona Lisa em ídolo pop foi seu debut nos Estados Unidos, levada com as bençãos de André Malraux pelo charme da Jacqueline Kennedy. Entre 600 mil a 2 milhões de americanos inauguraram a acorrida em massa que depois ficaria a cargo de japoneses (e hoje, dos chineses) para conferir nem tão de perto o que é que a Gioconda tem. Tinha, já, um bruta vidro à prova de balas e um tamanho pequenininho, que invariavelmente frustra os visitantes. Só não frustra mais porque a maioria, afinal, está lá só para dizer que viu a moça de perto; se você perguntar a um deles o que há atrás da Mona Lisa muito provavelmente não saberão responder, apesar de terem comprado a canequinha com a reprodução na loja do museu.

O translado temporário da Gioconda foi um golpe de soft power, num momento ruim para Kennedy e de Gaulle, como lembra AQUI a crítica Lisa Liebmann. Rendeu um livro curioso, Mona Lisa in Camelot, sobre o papel da Carla Bruni, digo, da Jacqueline Keneddy, no esforço para que a Gioconda fizesse sua primeira _e única _ viagem transatlântica.

Para mim (e para mais um especialista de quem vi um video e não consigo lembrar de jeito nenhum), foi aí nessa viagem que sacramentaram a Mona Lisa como o ó-do-borogodó da arte renascentista. Uma injustiça com outros quadros do mestre, o que é uma vantagem para quem gosta de arte: para quem está afim de um sfumatto leonardiano, é possível apreciar, com calma e sem tumulto ou gente interessada, a Virgem das Pedras, no corredor do Louvre que dá acesso à sala onde turistas se acotovelam para (não) ver o retrato famoso da mulher do seu Giocondo.

A viagem da Mona Lisa à América foi fascinante, e pode ser vista em vídeo aqui abaixo. Os locutores se encarregavam, como tinha feito Vasari e fazem os babões de hoje com a Gisele Bundchen, de informar aos leigos que estariam experimentando uma visão próxima à revelação divina. “The ageless symbol of a timeless true (o símbolo eterno de uma verdade perene)”, como diz o sujeito abaixo:

Os detalhes, ah, os detalhes. De valor incalculável, a Gioconda exigiu uma apólice para eventuais reparos, apólice de US$ 5 mil:

“Everybody wants to meet the new girl in town”. Malditos filisteus pervertidos.

Se você quer conhecer as explicações tradicionais para a fama da Mona Lisa, tem esse video aqui, que algum dia uma boa alma legenderá em português:

Mas um blogueiro de línga nacional também andou falando do tema, AQUI. Ops, e AQUI. E AQUI.

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